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Crítica: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

16 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

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Assembleia durante a ocupação de um prédio do filme Era o Hotel Cambridge. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Há muitos teóricos que acreditam que o cinema morreu. Outros, entretanto, acreditam que ele foi implodido por uma bomba de 10 megatons. É que há um tipo de cinema que precisa de uma nova classificação – um bom exemplo é o longa-metragem Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, que estreia nesta quinta-feira (16/3) no Cinema da Fundação/Museu e no Cinema São Luiz. O filme segue a tendência, que já tem pelo menos uma década de vida, de misturar ficção e documentário de tal maneira que o espectador fica sem saber onde termina um e começa o outro – e vice-versa.

Era o Hotel Cambridge usa essa estrutura ambivalente com vigor e inteligência, mas, acima de tudo, faz do cinema uma arma política – de denúncia, conscientização e atração. Sem dúvida, este é certamente o mais engajado filme brasileiro dos últimos anos, sem que nem por um segundo o espectador seja obrigado a engolir discursos que não os de seus personagens, uma multidão de sem-teto e refugiados estrangeiros que ocupam um hotel abandonado, no centro de São Paulo.

Dentro de mais de uma centena de apartamentos, uma colmeia humana das mais variadas. Em algum momento, alguém diz que a maioria é nordestina, mas a ocupação tem também refugiados congoleses, palestinos e colombianos. Aparentemente, eles não parecem atores, mas pessoas de verdade, que ocuparam o prédio porque não têm onde morar. Mas Eliane Caffé não pretende nos enganar, pelo menos quem vai ao cinema ou assiste TV reconhece o ator José Dumont – recorrente na filmografia dela – e a atriz Suely Franco.

Como o filme tem como característica um problema da coletividade, os dois atores não são os personagens principais. O Apolo interpretado por Dumont, que encena uma peça com os moradores, e a Gilda encarnada por Suely, uma artista de circo, mantém a mesma visibilidade que o poeta palestino Issam (Isam Ahamad Issa) e a líder Frente de Luta pela Moradia (FLM), Carmen Silva (como ela mesma).

A organicidade narrativa de Era o Hotel Cambridge surpreende ao transitar pelos personagens mais à vista e da centena de outros que circulam ao seu redor. Outros elementos, aos poucos, mostram que Eliane Caffé sabe em que terreno está pisando. Um deles é que há um roteiro e um filme em construção: toda a história se desenvolve num crescendo a partir do momento em que um juiz determina uma reintegração de posse dentro de 15 dias. Assim, uma pancada forte e um número acompanham o dia a dia do aglomerado humano.

A realidade documental, ainda assim, vai além das aparências. Detalhes das vidas dos refugiados, como memórias fotográficas, conversas por skype, canções e poemas adensam o tecido da vida real, sem que saibamos mais se elas pertencem ao personagem ou ao ator. De outra forma, não há como não ver quando a realidade toma o primeiro plano. As cenas da desocupação, com centenas de soldados jogando bombas nos prédios e no meio dos sem-teto, é a mais pura verdade.

Era o Hotel Cambridge é uma bem-sucedida tentativa de mostrar que os brasileiros e estrangeiros sem-teto representam um problema social que deve ser encarado pelo Brasil. Pelo menos em São Paulo, dá para perceber que são dezenas de prédios que dão ao centro da cidade um imagem de zona abandonada. O debate que o filme abre é dos mais urgentes. Eliane Caffé não apresenta saídas, mas mostra que seres humanos incríveis estão à procura de um lugar para morar.


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