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Crítica: Hiroshima Meu Amor

16 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 5:00

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Emmanuelle Riva e Eiji Okada numa cena de Hiroshima Meu Amor. Foto: Zeta Filmes/Divulgação

No cinema, a autoria de um filme cabe sempre ao diretor. Mas há filmes que, algumas vezes, mesclam outra assinatura tão forte quanto a do diretor. Os monólogos e diálogos escritos por Marguerite Duras são tão importantes quanto a direção de Alain Resnais. Ainda mais que o filme, acima de tudo, seja uma história de amor, mas também uma história de dor.

Relançado em versão restaurada na Mostra Cannes Classic, em 2013, Hiroshima Meu Amor está volta para conquistar mais uma geração de espectadores. O filme entra em cartaz a partir desta quinta-feira (16/3) no Cinema da Fundação/Museu e no Cinema São Luiz.  É assim desde 1959, quando foi exibido em Cannes pela primeira vez. Não ganhou nenhum prêmio, mas entrou para a posteridade ao mostrar que o cinema era muito mais que a arte de contar histórias, ou melhor, de contar histórias da mesma maneira.

Marguerite Duras já havia escrito uma boa quantidade de romances quando Alain Resnais a convidou para escrever o roteiro de Hiroshima Meu Amor, um projeto encomendado a ele para lembrar a bomba atômica que arrasou a cidade japonesa, em 1945. Embora a incentivasse para ir mais fundo na música das palavras, Marguerite temia que estivesse fazendo literatura. Bem, o certo é que eles fizeram cinema e literatura. O resultado desse encontro é um dos filmes mais belos e complexos da história do cinema.

Nunca as imagens e as palavras casaram tão bem num filme. Os diálogos trocados entre “Ele” e “Ela”, os não-nomes do arquiteto e da atriz interpretados por Eiji Okada e Emmanuelle Riva (morta há pouco mais de um mês, aos 81 anos) são exemplos de que a poesia e o cinema dão uma liga inesquecível.

É bem verdade que os filmes, como tudo na vida, também envelhecem. Alguns mais do que outros, pode-se até dizer. Mas é difícil não perceber como Hiroshima Meu Amor passou incólume ao avanço do tempo. É só fazer uma mínima decomposição de alguns dos seus elementos, como a música assinada por Georges Delerue e Giovanni Fusco e a direção de fotografia partilhada por Michio Takahashi e Sacha Vierny. Nesse caso, os fotógrafos trabalharam separadamente, um no Japão (na parte do presente) e outro na França (na parte do passado, com a história da juventude da atriz e sua paixão por um soldado alemão, quando é exposta à expiação pública).

Essas duas narrativas se cruzam e se engolfam numa mescla de tempos e complexidade narrativa que deixaram os espectadores siderados tanto quanto aqueles que assistiram a Cidadão Kane. Os diálogos trocados entre “Ele” e “Ela” são tão antológicos que muitos cinéfilos os sabem de cor, como na cena em que a atriz questiona o arquiteto sobre a sua necessidade de querer saber sobre o seu passado em Nevers: “Porque foi lá que eu tenho a impressão que quase perdi você”, responde. São tantos os momentos sublimes de Hiroshima Meu Amor que cada cinéfilo carrega o seu.


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