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Crítica: Jonas e o Circo sem Lona, de Paula Gomes

16 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

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Cena de Jonas e o Circo sem Lona. Foto: Haroldo Borges/Divulgação

A infância é um território sagrado do cinema. Charles Chaplin, Jean Epstein, François Truffaut e Abbas Kiarostami, entre outros cineastas, deram mostras irrefutáveis de como os primeiros anos de vida de uma pessoa são marcantes. O documentário Jonas e o Circo sem Lona, que estreia nesta quinta-feira (16/3) no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação/Museu, dentro da programação da Sessão Vitrine – Petrobras, é um digno representante da vertente que tem a infância como fundação da vida futura.

A diretora Paula Gomes acompanhou por cerca de dois anos a vida de Jonas Laborda, 13 anos, um menino que construiu um pequeno circo no quintal da casa onde mora com a mãe e avó, na periferia de Salvador. Influenciado pelo passado familiar e por um tio que ainda mantém um circo, o pequeno e focado Jonas passa as tardes com um grupo de amigos entretendo a eles mesmos e a outros meninos e meninas das redondezas.

Como um artista completo, ele é palhaço, dançarino, malabarista, trapezista e locutor. Um menino-orquestra, de imenso talento e criatividade. Essa temporada edênica, que acontece durante as férias, começa a mudar quando Jonas é obrigado a voltar para a escola. É aqui que o drama de Jonas se instala: apesar de se esforçar para manter os ensaios, que começam a se esvaziar quando os colegas deixam de aparecer, ele ainda vai enfrentar a autoridade da mãe, que o pressiona para ir à escola, além de lutar para demovê-lo da ideia de ir morar com o tio.

A câmera carinhosa de Paula Gomes flagra toda a tristeza de Jonas em closes reveladores. As cenas em que ele se comporta como ator são vivas e alegres, como o cover de Michael Jackson. Mas Jonas se revela mais quando enfrenta a mãe, Dona Neide, ou quando conversa com a avó. Esse descompasso, aos poucos, atinge a narrativa do filme. A invisibilidade da câmera desaparece quando os dilemas de Jonas afloram, como se ele tivesse que prestar contas do próprio sonho.

Jonas e o Circo sem Lona consegue transmitir a pureza da infância e da permanência dos sonhos. A história desse menino pobre, preto e de periferia tem a marca da simplicidade que o cinema sabe expressar como nenhuma outra arte.


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