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Crítica: Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga

19 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

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Antônio Pitanga e Maria Betânia, numa cena do filme. Foto: Matheus Brant.

A depender do tema, os documentários são sérios e sisudos – seus diretores, de uma maneira de outra, querem fazer o espectador pensar. Raros são os documentários que nos fazem pensar – e também rir. A cinebiografia do ator, político e gestor Antônio Pitanga (de nascimento, Sampaio) é um caso à parte. Do começo ao fim, o ator baiano, de 77 anos, deixa o público em estado de graça com sua alegria de viver. Pitanga estreia nesta quinta-feira (20/4), no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte.

Dirigido por Beto Brant e pela atriz Camila Pitanga, filha do ator, o documentário é uma ode a Antônio Pitanga e por, conseguinte, ao cinema brasileiro. Afinal, eles são inseparáveis. Nascido em Salvador, onde despontou para o cinema no início da década de 1960, Pitanga é a cara do cinema novo, o movimento que nasceu entre a Bahia e o Rio e revolucionou o audiovisual brasileiro.

Pitanga é de uma felicidade absoluta. Era de se esperar que amigos, compositores, cantores, cineastas e parentes abrissem seu coração para falar dele. Fazem isso, mas não da maneira costumeira dos documentários, falando para a câmera sobre uma pessoa que está a quilômetros de distância. Conhecendo as entranhas do seu personagem, Camila e Beto, ao contrário, levaram Pitanga para rever praticamente quase todas as pessoas que, de alguma maneira, cruzaram o seu caminho.

É como se Pitanga resolvesse revisitar o que se passou com ele e relembrasse todas as histórias. Pitanga recomeça essa peregrinação afetiva por Salvador. Volta à Praia do Buraquinho, em Itapuã, onde se deram as filmagens de Barravento, de Glauber Rocha, em 1960. Com os olhos de quem sonha, Pitanga fita o sol e, de repente, passar por ele uma jovem negra, uma cópia da atriz Léa Garcia, sua companheira de elenco.

Em Salvador, Pitanga volta à casa onde morou com a mãe e os irmãos, reencontra parentes e amigos, como Mônica Millet, a neta de Mãe Menininha, o compositor Capinam, o cineasta Roque Araújo, o compositor Caetano Veloso e sua irmã, a cantora Maria Betânia, que foi foi apaixonada por ele. A conversa de Pitanga com as atrizes que contracenaram é pura emoção. Muitas se apaixonaram por ele, como as atrizes Zezé Mota e Ítala Nandi, que ainda o adoram.

Diretores de cinema e teatro também são visitados por Pitanga. Ele têm conversas saborosas com Sergio Ricardo (irmão do cinegrafista Dib Lutfi), Hugo Carvana, Neville d’Almeida, Cacá Diegues e José Celso Martinez. Em cada parada, o papo é ilustrado por cenas tiradas dos filmes em que Pitanga teve participação destacada, como O Pagador de Promessas (1962), Ganga Zumba (1963), Sol sobre a Lama (1963), Lampião, o Rei do Cangaço (1964), Menino de Engenho (1965), A Grande Cidade (1966), Corisco, O Diabo Loiro (1969), Jardim de Guerra (1969), A Idade da Terra (1980), Rio Babilônia (1982) e Quilombo (1983), entre vários outros.

Além da vida pública, o filme mostra como Antônio Pitanga é um homem dedicado à família e aos filhos, em conversas íntimas com Camila, Rocco (também ator), os netos e com a segunda mulher, a ex-governadora do Rio, Benedita da Silva, com quem está casado desde 1990. Como diria Glauber Rocha, Antônio Pitanga é um gênio da raça.


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