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Crítica: David Lynch: A Vida de um Artista, de Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm

30 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 6:23

David Lynch. Foto: Fênix Filmes.

De enigmas indecifráveis a histórias inenarráveis, de segredos guardados a sete chaves a comentários sombrios – tudo é mistério em torno do diretor americano David Lynch. Pelo menos era até aparecer o documentário David Lynch – A Vida de um Artista, realizado por três amigos e colaboradores do cineasta – Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm –, a partir de recursos advindos de um processo de crowdfunding.

Em exibição a partir desta quinta-feira (31/9) no Cinema da Fundação/Museu, o documentário não pega carona no sucesso da terceira temporada de Twin Peaks, que trouxe Lynch novamente ao centro das atenções. Na verdade, o filme mal chega a esboçar o que Lynch fez no cinema, pois limita seu alcance até o momento da feitura de Eraserhead, seu primeiro longa, realizado durante uma residência numa escola de cinema.

Mas se isso parece um tanto frustrante em virtude do hype de Twin Peaks, por outro lado permite que o filme abra clareiras sobre a vida de Lynch e como ele se dedicou, diariamente, desde a mais tenra infância, para encontrar seu lugar como artista – e não um artista qualquer, como percebe qualquer pessoa que já assistiu a um dos seus filmes. Aos 71 anos, de cabelos brancos e sem largar os seus cigarros, Lynch dedica-se à criação artística como uma legião de formigas trabalha em suas colônias, sem ter um segundo de descanso.

Ao contrário de jogar Lynch na cara do público, o trio avisa que o filme dedicado à Lula Boginia Lynch. Lula o quê? Será que ele tem um filha com o mesmo nome da personagem vivida por Laura Dern em Coração Selvagem? É o que ficamos sabendo nas primeiras imagens do documentário, quando o cineasta conversa com a filha Lula, uma menininha de uns três anos. Se fosse apenas para dizer que Lynch tem uma filha chamada Lula, o filme já havia garantido consideração de sobra, mas é que sua visão é totalmente compensadora.

Narrado pelo próprio Lynch, que conta sua história em detalhes entre o poético e o sombrio, o sonho e o pesadelo, o filme tem uma qualidade hipnótica. A cada detalhe das memórias do cineasta e do que ele faz hoje, do passado do Meio-Oeste americano ao sul da Califórnia, somos testemunhas dos esforços de um artista que lutou para criar uma personalidade própria, única, sem par.

Mesmo sem rivalizarem com o mestre, os realizadores também mimetizam o mundo de Lynch com o que eles estão fazendo. No entanto, nada parece fora do lugar, nem forçado, pois a trajetória de Lynch é repassada em muitos momentos e com farto material audiovisual, embora a duração mal chegue aos 90 minutos. Econômico e de ritmo compassado, David Lynch – A Vida de um Artista revela um criador em tempo integral e um ser humano de alma invulgar.


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