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Crítica: Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

31 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 5:17

Paulo Vilhena e Maria Ribeiro numa cena de Como Nossos Pais. Foto: Imovision/Divulgação

Mãe, esposa, filha, dona de casa, trabalhadora e cuidadora, Rosa (Maria Ribeiro), 37 anos, junta-se a uma galeria de personagens femininos que enriquecem o cinema brasileiro atual. Rosa é a protagonista de Como Nossos Pais, o quarto longa de Laís Bodanzky, que estreia nesta quinta-feira (31/8) em circuito nacional, depois ganhar seis troféus Kikitos no Festival de Gramado, entre eles os de Melhor Filme, Direção (Laís) e Atriz (Maria).

Desde as primeiras cenas, que acontecem antes, durante e depois de um almoço dominical, o filme apresenta suas cartas. Rosa está de saco cheio e alguma coisa precisa acontecer urgentemente para ela retomar as rédeas de sua vida. O roteiro bem polido e quase sem arestas de Como Nossos Pais, escrito a quatro mãos e dois corações por Laís e Luiz Bolognesi, seu companheiro, vai logo no cerne do conflito entre Maria e a mãe dela, Clarice (Clarisse Abujamra). Dado (Paulo Vilhena), o marido de Rosa, também entra na dança.

Em menos de 10 minutos, o mundo de Rosa desaba quando Clarice revela um segredo que esvazia uma das verdades absolutas de qualquer pessoa. Outras, dolorosas, que envolvem as duas mulheres ainda serão reveladas, pondo mãe e filha numa situação tão delicada quanto insuportável. Diante da imponderabilidade da vida e da morte, Rosa abre caminhos rumo a outra vida que não aquela já esgotada de possibilidades. Com a mãe e o marido como vértices de um triângulo injusto, a posição perpendicular de Rosa lhe traz desconforto e um peso difícil de carregar.

Como Nossos Pais, com sua velada inspiração na canção homônima de Belchior, martela sua notas em torno do conflito de gerações, ou melhor, da posição de negação dos filhos às ideias dos pais. Embora esse tema seja subjacente ao tecido dramático do filme desde o início, seu desenvolvimento será uma operação de renascimento para Maria, da descoberta de um novo pai à construção de uma nova persona. Sua decisão de criar uma nova vida passa por Nora, a personagem da peça Casa de Bonecas, de Ibsen – uma via de mão dupla, um espelho que reflete um novo destino que ele tenta transformar em texto de sua autoria.

E, forçosamente, esse novo caminho à liberdade passa pela desmascaramento do marido. Sem forçar embates catárticos, Laís e Luiz acertam nos diálogos ásperos, nas observações irônicas e numa elevação de tom que não cai no terreno da DR, quando Maria, sistematicamente, aponta as diferenças abissais entre as obrigações e deveres de um e de um outro com as filhas, a casa e eles mesmos. Poucas vezes um filme foi tão cirúrgico ao desvelar um personagem que, escondido sob o manto das grandes lutas (a defesa do meio-ambiente, no caso de Dado), não passa de pequeno farsante.

Construída com bases sólidas, a trajetória de Rosa também passa pela satisfação sexual e pela culpa – outra situação necessária para ela colocar em sua balança. Essa nuance de detalhes em torno de Rosa, da ligação com o pai, Homero (Jorge Mautner), e com Pedro (Felipe Rocha), o pai de um colega das filhas, completam o prisma sob o qual Laís conduz seu rico personagem.

Tudo isso faz de Como Nossos Pais uma experiência das mais sutis, mas não sem escancarar as relações de poder no casamento e entre pais e filhos. Apoiada em situações simples e corriqueiras, Laís mostra uma dinâmica familiar que conhece bem, assim como fizeram Anna Muylaert, em Que Horas Ela Volta?, e Kleber Mendonça Filho, em Aquarius. Por trás desses personagens femininos, percebemos que existem forças que as fazem resistir, reagir e avançar em seus propósitos.

A bem da verdade, elas não são figuras totalizantes – talvez Val e Jéssica, a mãe e filha de Que Horas Ela Volta?, respondam mais à questão social –, mas boas representações da condição da mulher em geral. Rosa é de classe-média e mora em São Paulo, mas seu arquétipo é compreensível e identificável. As muitas Rosas do Brasil vão querer conhecê-la.

Nesta sexta-feira (1º/9), a cineasta Laís Bodanzky vem ao Recife para participar de uma sessão debate no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte. A sessão começa às 2oh e o debate após a exibição do filme.


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