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Crítica: Feito na América, de Doug Liman

13 / set
Publicado por Ernesto Barros às 5:40

Tom Cruise numa cena de Feito na América. Foto: David James/Universal/Divulgação

O cinema americano é obcecado por histórias baseadas em fatos reais. Na maioria dos filmes hollywoodianos, o primeiro crédito já alardeia que vamos assistir a uma trama verdadeira, como se isso já fosse uma condição obrigatória para sua existência. Quando as tramas atingem as raias da ficção, os filmes ficam mais interessantes. Mas o melhor é que algumas dessas histórias são tão absurdas e mirabolantes que fica até difícil de acreditar que aquilo que estamos vendo aconteceu mesmo.

É o caso do hilário e politizado longa-metragem Feito na América, de Doug Liman, em cartaz a partir desta quinta-feira (14/9) nos cinemas brasileiros. O filme traz um personagem que se mete em situações tão malucas e imprevisíveis que o aviso de baseado em fatos reais parece uma brincadeira. Só que não, porque o aviador Barry Seal, vivido com o charme de sempre por Tom Cruise, realmente passou por momentos que superaram sua condição de tão pouca importância – como quando é permitido a um vereador de uma cidadezinha de mil habitantes chegar à presidência de um país ou a um jogador da quinta divisão defender a camisa da seleção nacional.

Aviador da companhia TWA, já acostumado a dormir numa cidade diferente a cada dia, Seal tinha tudo para seguir seu destino de trabalhador comum, que volta cansado para os braços da mulher e dos filhos pequenos, até que eles cresçam e ele se aposente. O que talvez explique a história extraordinária de Barry Seal é que ele viveu nos selvagens anos 1980, uma década onde aconteceu de tudo e mais um pouco. No seu caso, Seal foi recrutado por Monty Schafer (o irlandês Domhnall Gleeson), um agente da CIA, que descobriu que ele traficava caixas de charutos cubanos. Sem falar muito, Schafer convida, ou melhor, obriga, o aviador a participar de um trabalhinho sujo em nome da pátria, mas que vai lhe render uma grana extra.

Doug Liman, que já havia dirigido Tom Cruise na ficção científica No Limite do Amanhã, imprime um ritmo trepidante para contar a surpreendente saga de um homem comum, mas um tanto espertinho, que entra no olho do furacão de uma época célebre pelos excessos. Em Feito na América, Liman traz um frescor narrativo semelhante aos seus primeiros filmes, como Vamos Nessa e A Supremacia Bourne, agora na companhia de um personagem que, atropelado pelo acaso, aproveita a onda sem se importar em como sua história vai terminar.

Esse desenho sumário que o roteirista Gary Spinelli traça do aviador, logo nas primeiras cenas, permanecerá inalterado por todo o filme. Barry Seal parece que não dá a mínima importância para o que está fazendo, nem mesmo às sacolas e mais sacolas de dinheiro que traz para casa em cada missão. Exímio aviador, ele vai participar de uma missão importante do governo do presidente Ronald Reagan, que trava uma longa e infrutífera batalha contra o comunismo. Enquanto o país lutava contra a ameaça vermelha dos sandinistas da Nicarágua, o tráfico de drogas cruzava os céus dos Estados Unidos de ponta a ponta.

Longe de ser uma figura trágica, Seal vai se aproveitar das missões de reconhecimento – seu avião fotografa pontos estratégicos dos países da América Central – para se envolver em vendas clandestinas de armas e no tráfico de drogas, quando conhece um trio de empresários colombianos, entre eles Pablo Escobar (Mauricio Mejía, um especialista em interpretar o traficante na TV colombiana). Embora esse tipo de personagem apareça em muitos filmes, principalmente em histórias que seguem sua ascensão e posterior queda, a trajetória de Seal é bastante diferente. Ou seja, quando ele está prestes a cair nas mãos da polícia, chega alguém do governo e da própria CIA para recrutá-lo em outra, e assim ele vai dando seus golpes com a ajuda do Estados Unidos.

Um dos momentos mais hilários do filme é quando Seal, durante uma ação na cidadezinha onde mora, no Arkansas, é preso ao mesmo tempo pela polícia local, a estadual e o FBI. E quando está prestes a ser finalmente pego, uma juíza recebe um telefone do governador do Estado, o desconhecido Bill Clinton, que o solta na hora. Na verdade, o que a história de Feito na América expõe é a política externa completamente atrapalhada de Ronald Regan para a América Latina e a falta de cuidado com o crescente problema do tráfico de drogas. Isso fica explicitado numa fala da primeira-dama Nancy Reagan que, numa transmissão de TV ao lado do marido, diz que o primeiro passo da luta contra as drogas era a pessoa dizer não.

Outros cineastas, como Oliver Stone principalmente, foram mais incisivos ao criticar os Estados Unidos em suas ações políticas nos países vizinhos e na luta contra as drogas. Mas ninguém ridicularizou os políticos americanos como Doug Liman. Além de Reagan, no caso do escândalo Irã-Contras, que manchou a administração do presidente-ator, Liman não poupa nem Bill Clinton nem George W. Bush, que, mesmo de relance, não escapam às lentes críticas do diretor.

Para contar essa história, sem se apoiar em imagens conhecidas ou mesmo em sonoridades já exploradas, Liman soube encontrar um caminho que não fizesse de Feito da América um filme igual a tantos outros. Para isso, ele convidou o diretor de fotografia uruguaio-brasileiro César Charlone (famosíssimo depois de Cidade de Deus) para criar o visual do filme. Não apenas o visual, mas também o estilo de capturar a realidade daqueles anos, sua velocidade e seu calor. Quase sempre colada nos personagens, a câmera operada por Charlone parece um personagem. Ou talvez mais do que isso: sua presença bisbilhoteira, olhando por frestas, se assemelha ao olhar de próprio espectador, que mesmo a distância também participa da louca aventura.

Talvez o filme, pela própria presença de Tom Cruise, não carregue nas tintas excessivas da violência, do consumo de drogas ou mesmo do sexo. Mesmo assim, o ator tenta esquentar o clima quando transa com a mulher, Lucy (Sarah Wright), na cabine do avião. Ainda assim, com essas concessões, Feito na América é um afiado olhar crítico à política externa americana, eternamente obcecada com os quintais dos outros países. De certa maneira, o filme mostra que os Estados Unidos deviam ter cuidado é com seus presidentes trapalhões.


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