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Crítica: Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

14 / set
Publicado por Ernesto Barros às 6:58

Daniela Vega, numa cena de Uma Mulher Fantástica. Foto: Imovision/Divulgação

A tolerância e o respeito à diversidade – cultural, religiosa, artística ou sexual – tem sido maltratada sem dó nem piedade no Brasil e em muitos outros lugares. O longa-metragem Uma Mulher Fantástica, que estreia nesta quinta-feira (14/9) no Cinema da Fundação/Museu, é um manifesto poético em defesa das minorias sexuais. A mulher fantástica do filme é a transexual Marina (Daniela Vega, atriz transexual), uma garçonete de voz divina, que sonha em ser cantora lírica. Para alguém que não aceita – em nome da religião e dos bons costumes – que um homem não pode viver como uma mulher, e vice-versa, o filme deve ser visto com uma afronta.

O cineasta chileno Sebastián Lelio já havia feito algo parecido com Glória, em 2013, quando mostrou uma mulher de 50 e tantos anos exercendo a liberdade de ter uma vida sexual ativa. Tanto Glória quanto Marina são mulheres fantásticas pela coragem de ir atrás do que a vida lhes oferece, sem terem que pedir licença ou serem repreendidas como criminosas pelos atos amorosos que cometeram.

Em Uma Mulher Fantástica, a situação é muito mais grave. Afinal, o preconceito é muito maior contra uma mulher transexual, principalmente quando a presença dela avança no seio familiar. É o que acontece com Marina. Lelio faz uma apresentação rápida do idílio em que ela vive com o empresário do setor têxtil Orlando (Fernando Reyes), de 57 anos: eles se encontram numa casa de shows onde ela canta, jantam e depois vão para casa, onde transam e vão dormir.

O que vem a seguir é um pesadelo: Orlando acorda sentido-se mal e morre pouco depois de ser atendido num hospital. A morte, claro, não é o problema. Mas, sim, a família de Orlando, que avança sobre Marina com todo tipo de preconceitos, ameaçando-a fisicamente e tirando-lhe qualquer direito de se despedir do homem que amava. Sim, porque o que fica nas entrelinhas, mais do que o fato dela ser uma mulher transexual, ou uma amante, é a percepção de que Marina e Orlando tinham uma relação, se amavam.

Sebastián Lelio e o corroteirista Gonzalo Maza, parceiros em três longas, constroem com muita eficiência o trajeto de Marina, que é posta em suspeição pela polícia, pela ex-mulher de Orlando e pelo filho mais velho dele. Na polícia, Marina passa por momentos constrangedores, onde é destituída dos direitos e obrigada a tirar a roupa para ser fotografada, como se a sua identidade tivesse que passar pela expiação de seus genitais. Da família, o ataque é mais violento: começam expulsando-a do apartamento onde morava com Orlando, forçam uma tentativa de sequestro, até sua total invisibilidade.

Mas toda essa crônica realista, digamos, até mundana, sofre um desvio misterioso e fantástico, quando o filme ganha em vitalidade e originalidade. A meio caminho de uma trama de suspense, Lelio acaba fazendo da procura de Marina pelos seus direitos uma jornada contra as forças invisíveis da sociedade, que abusam do poder quando acreditam que estão sendo ameaçadas.

Esse estranhamente, que já era percebido em Glória, quando a personagem se encontrava com um pavão, também está presente em Uma Mulher Fantástica e com o mesmo nível de sutileza. Não por acaso, o filme ganhou o Urso de Prata de Roteiro e o Troféu Teddy (para filme de temática LBGT) no último Festival de Berlim.


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