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Crítica: Depois Daquela Montanha, de Hany Abu-Assad

02 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 6:15

Kate Winslet e Idris Elba numa cena de Depois Daquela Montanha. Foto: Fox Filmes.

Se você não suporta os filmes adaptados dos romances do americano Nicholas Sparks (Diário de uma Paixão, Querido John, entre vários outros) e da inglesa Jojo Moyes (Como Eu Era Antes de Você), certamente vai passar a um quilômetro de distância do cinema que está exibindo o longa-metragem Depois Daquela Montanha, que estreia nesta quinta-feira (2/11) em circuito nacional.

Assim como os romances água com açúcar de Nicholas Sparks e Jojo Moyes, o americano Charles Martin caprichou na sacarina em The Mountain Between Us, lançado em 2010 e, milagrosamente, inédito no Brasil. Na tradução brasileira, a montanha foi removida e não ficou entre os personagens interpretados por Kate Winslet e Idris Elba.

Na trama, eles são dois estranhos que entram numa fila e não encontram passagens de uma companhia aérea. Por conveniência, alugam um aviãozinho para honrarem compromissos. Alex Martin (Kate) é uma fotojornalista que, depois de uma pauta, quer pegar um voo para chegar a tempo de seu próprio casamento. E Ben Bass (Elba) é um neurocirurgião que precisa voltar à cidade porque tem uma paciente à espera.

Sabe o que acontece durante o voo? Ou você não quer saber porque é spoiler? Se não quiser ler o texto até o fim nem ver o filme, veja o trailer: ele condensa a ação para pouco mais de dois minutos. Não me interrompa mais, por favor. Continuando: o avião cai numa montanha gelada e os dois sobrevivem ao acidente, com algumas sequelas, obviamente.

A única vítima é o piloto (Beau Bridges, irmão de Jeff, que você reconhece pela voz idêntica), que deixa para o casal, de presente, um cachorro muito do bonzinho (no início ele posa de raivoso, só para enganar o casal um pouquinho). Casal? Mas eles não eram estranhos? Ela não é noiva e vai casar naquele dia? E Ben, de anel no dedo e tudo? Bem, segredos serão revelados e o amor, esse sentimento insidioso e sem vacina, vai atacar Ben e Alex. É preciso continuar? Não mesmo, porque o final é tão conhecido que seria surpresa se fosse diferente.

Os cinéfilos, esses alucinados por cinema, que sabem de tudo sobre os diretores, devem estar imaginando porque cargas d’água o palestino Hany Abu-Assad aceitou dirigir Depois Daquela Montanha. Afinal, depois do desastrado (opa) Entrega de Risco, que ele realizou há cinco anos, deveria ter aprendido a lição com os produtos de carregação oferecidos por Hollywood a diretores estrangeiros.

E ainda por cima um diretor estrangeiro tão estranho quanto ele, um diretor palestino detentor de duas indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Paradise Now, em 2006, e Omar, em 2014) e que é bem-visto pela crítica. A lição que Hany Abu-Assad deveria tirar, claro, é que não vale a pena (pelo menos artisticamente, financeiramente é outra história) um diretor que nada tem a ver com Hollywood assinar um contrato para fazer um filme lá.

Isso não quer dizer, apesar de tudo, que aqui e acolá o diretor não mostre um momento sequer de personalidade. A carga toda recai, porém, sobre os ombros de Kate Winslet e Idris Elba. Eles fazem de tudo para que seus personagens, no mínimo, sejam pessoas confiáveis, pois eles exigem muito pouco do talento deles.

Mesmo assim, Kate e Elba emprestam muito carisma e fotogenia frente às câmeras, o que é insuficiente, no entanto, para fazer de Depois Daquela Montanha um filme que seja lembrado por mais de um punhado de horas.


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