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Crítica: As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

07 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 7:33

Marjorie Estiano e Isabel Zuáa em cena de As Boas Maneiras. Foto: Imovision/Divulgação

Um é pouco, dois é bom, três é demais? Não com os paulistas Marco Dutra, Juliana Rojas e Caetano Gotardo – os três amigos cineastas da produtora Filmes do Caixote, que desde os tempos de escola de cinema (ECA-USP) aterrorizam e comovem os cinéfilos com uma série considerável de trabalhos desconcertantes.

Eles estão de volta com o muito ambicioso As Boas Maneiras, que Marco e Juliana codirigiram e coescreveram e Caetano montou. O filme é um dos concorrentes da Mostra Competitiva de Longas-Metragens do Janela e tem sua segunda nesta terça-feira (7/1), no Cinema da Fundação/Museu, às 15h40.

As Boas Maneiras junta as características dos várias trabalhos realizados pelo trio, do politicamente tenso Trabalhar Cansa (2011) ao morbidamente alegre Sinfonia da Metrópole (2014), este dirigido apenas por Juliana.

Agora, Marco e Juliana tiveram condições de produção para irem além das sugestões e partiram para um filme com um escopo mais arrojado, o que significa o uso de efeitos especiais para criar um menino lobisomem e muita intervenção digital na imagem, como o uso intensivo de matte painting (pintura de cenários).

Apesar desse apelo tecnológico, é a trama bem arquitetada e surpreendente, fabular e metafórica, que faz dos filmes deles uma rica contribuição ao cinema brasileiro atual, o mesmo do pernambucano Kleber Mendonça Filho e alguns outros diretores.

As características do cinema de gênero, o terror, que eles trazem para seus filmes, têm dado uma nova cara à produção brasileira, com personagens que estabelecem relações complexas, sempre colocadas em questão.

Embora seja um filme de lobisomem – bastante comum, convenhamos –, As Boas Maneiras traz elementos novos que subvertem as expectativas dos espectadores já a partir do par central: Ana (Marjorie Estiano), uma jovem rica, grávida, enclausurada num apartamento em São Paulo, e Clara (Isabel Zuáa), um babá negra, que aceita o emprego e se afeiçoa pela patroa, até que as duas, meio que num transe, vão se envolver amorosamente.

Claramente dividido em duas partes – da gravidez de Ana à infância do menino-lobisomem Joel (Miguel Lobo) –, As Boas Maneiras se alinha ao gênero terror, mas com pitadas de filmes da Disney e de crítica social. Pode ser até que a primeira parte não contenha falhas, mas a segunda, desenvolvida num subúrbio paulista, à sombra de shoppings e arranha-céus, permite uma leitura política da sociedade brasileira e suas questões de classe e representação. Mas essa é a leitura de fundo, porque, na superfície, é uma excelente diversão.


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