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Crítica: Bom Comportamento, de Josh e Benny Safdie

16 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 6:57

Robert Pattinson, numa cena de Bom Comportamento

Quando foi exibido no último Festival de Cannes ­– após dois ou três dias em que os filmes não estavam animando muitos os críticos –, o longa-metragem Bom Comportamento (Good Time, 2017) foi visto como uma lufada de ar fresco na Seleção Oficial. Pois é mais ou menos isso que é o filme codirigido pelos irmãos Josh e Benny Safiie: um sopro de vitalidade nas narrativas de ação e sobrevivência nas grandes cidades, principalmente quando os cineastas conseguem escolher personagens fora do espectro e escapar dos clichês a que o espectador é dado a reconhecer cada vez que assiste a um filme. Bom Comportamento estreia com exclusividade no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte.

Embora conhecidos de um pequeno círculo de críticos e jornalistas que acompanham as mostras paralelas de Cannes – eles estiveram com filmes por dois anos seguidos na Quinzena dos Realizadores, no final da década passada –, os irmãos Safdie são praticamente desconhecidos. Assim, Bom Comportamento parece ser um cartão de visitas para o trabalho deles: um filme que exala adrenalina em cada fotograma – sim, eles ainda filmam em película -, além de que Josh e Benny se posicionam em várias frentes, com o último interpretando um dos personagens e também dividindo a feitura da montagem com Ronald Bronstein, que divide o roteiro com Josh.

Essa familiaridade entre os realizadores, todos nativos do bairro do Queens, em Nova York, onde Bom Comportamento foi filmado, faz que com o resultado seja completamente satisfatório. Talvez por isso que eles precisaram ir atrás apenas de um astro para que o filme tivesse uma cara mais reconhecível para o grande público. Por sorte, eles encontraram Robert Pattinson, jovem ator que foi alçado à categoria de estrela na série Crepúsculo e hoje vive uma carreira completamente diferente da que se esperava dele.

Robert Pattinson e Benny Safdie interpretam dois irmãos. Eles vivem com a avó. A primeira sequência é praticamente um longo close no rosto de Nick (Benny), cujos olhos perdidos e língua enrolada indicam que ele é mentalmente prejudicado. No meio da sessão com um psiquiatra, que tenta retirar respostas que ele não consegue dar, surge Connie (Robert Pattinson), o irmão mais velho. Connie leva o irmão e num piscar de olhos eles já estão no meio de um assalto a um banco. Apesar de não entender bem a situação e agoniado por uma máscara, Nick consegue ir até o fim do roubo, quando uma bomba de tinta vermelha, dentro de um carro, faz com que eles comecem a ser caçados pela polícia.

Essa sequência é apenas um aperitivo para o que os irmãos Safdie vão levar noite adentro pelas ruas, becos, parques de diversões e condomínios do Queens, uma paisagem pouco explorada de Nova York, mas que é tratada de uma maneira muito própria, justamente porque conhecem cada um daqueles cantos. Com o irmão capturado pela polícia, e com receio que ele vá para a cadeia, Connie empreende uma alucinada busca por dinheiro – o produto do roubo ficou inútil depois que as verdinhas ficaram vermelhas – para pagar um advogado e livrar o irmão.

O sentido de imprevisibilidade que Josh e Benny imprimem a partir do roubo deixa os espectadores sem fôlego e sem capacidade de adivinhar a próxima cena. A velocidade da narrativa acompanha a fuga de Connie, suas tentativas de reencontrar o irmão e os erros que se acumulam pelo caminho. De certa maneira, o cinema deles se alia à antropologia das ruas de Sidney Lumet, com a adrenalina visceral dos filmes de Samuel Fuller e Martin Scorsese, que souberam como ninguém incluir a cidade na vida dos seus personagens, geralmente policiais, pequenos ladrões ou figuras aleijadas pela sociedade. E Josh e Benny fazem isso sem tirar o pé do acelerador, tirando o fôlego do espectador em cada uma das escapadas de Connie.


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