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Crítica: Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

29 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 14:56

Imagem pintada de Van Gogh. Foto: Europa Filmes/Divulgação

Embora não pertença à base técnico-artística fundadora da imagem em movimento, a pintura tem relações constitutivas inegáveis com o cinema. Ainda sem o uso da cor, os primeiros cineastas tinturavam a película – para criar a ilusão da noite, do dia, etc – ou pintavam diretamente sobre ela. Alguns foram mais longe e capturaram a visão do mundo como se fosse uma pintura, como o russo Aleksandr Petrov no curta Moya Lyubov (Meu Amor), de 2005. Mas nenhuma experiência foi mais longe que o longa-metragem Com Amor, Van Gogh, da dupla Dorota Kobiela e Hugh Welchman, que estreia nesta quinta-feira (30/11) no Moviemax Rosa e Silva.

Eles foram muito longe, bem perto do inimaginável. Afinal, quem pensaria em assistir a um filme pintado pelo genial pintor holandês Vincent Van Gogh? É assim que se desenvolve o filme, como se dezenas de pintores se reunissem para recriar o mundo nas cores e nos traços dramáticos e impressionistas de Van Gogh, fazendo-nos testemunhas de uma pintura em movimento, com as pinceladas cobrindo as paisagens e os rostos dos personagens de azul, amarelo, verde e vermelho. No início, o efeito parece excessivo, mas nossos olhos, desconfiados de técnica tão impossível, aos poucos acredita no que está vendo.

Para serem ainda mais fiéis, os cineastas fizeram o filme com atores e depois usaram as cenas filmadas como a base das pinturas, pintadas frame a frame, totalizando 62.450 imagens. Nesse jogo entre o real capturado pela câmera e o trabalhado dos pintores (mais de 90, arregimentados por uma das produtoras do filme e que se enfurnaram num estúdio, em Cracóvia, na Polônia), Com Amor, Van Gogh atinge sensações visuais únicas e inéditas, deixando os espectadores de olhos arregalados por um bom tempo.

Diante de técnica tão admirável, até que seria possível pensar num filme hermético, sustentado pela imagem pura e simples. Mas, não, o roteiro assinado Dorota Kobiela, Hugh Welchman e Jacek Dehnel tem um gosto de thriller, pois a trama se estende do começo ao fim como uma longa investigação em torno da morte do pintor, que põe em suspeita a versão conhecida de que ele morreu após atirar contra si próprio. Apesar de todos os eventos que mostravam o desequilíbrio do pintor, que cortou a própria a orelha – dada a uma prostituta –, sua morte aconteceu num período em que ele estava aparentemente equilibrado.

Como um filme policial, Com Amor, Van Gogh segue os passos de Armand Roulin (Douglas Booth), o filho do carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), que sai de Paris, no verão de 1891, para levar uma carta endereçada a Theo Van Gogh (Cezary Lukaszewicz), e conhecer a localidade de Auvers-sur-Oise, onde Van Gogh (Robert Gulaczyk) passou seus últimos dias. Armand desde logo vai questionar todos os personagens que tiveram algum contato com Van Gogh, do psiquiatra-pintor Doutor Gachet (Jerome Flynn) e sua filha misteriosa, Marguerite (Saoirse Ronan), à garçonete Louise (Helen McCrory) e o barqueiro da cidade (Aidan Turner).

Van Gogh, quase sempre, é visto em flashbacks pintados em preto e branco, numa técnica mais sutil e que foge às cores dominantes da obra do pintor. Embora a narrativa seja bastante convencional, excessivamente dependente da palavra, quase sem um respiro para entrar no mistério que o filme propõe, essas cenas em preto e branco abrem uma perspectiva para a criação de novos filmes baseados na mesma técnica. Evidentemente, Com Amor, Van Gogh deva ser uma obra única. Se não, daqui a pouco algum cineasta engraçadinho vai querer contar a história de Romero Brito. Melhor não dar ideia, não é?

 


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