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O adeus à Dona Didi, que testemunhou o cinema engatinhando

06 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 19:15

Adriana Falangola Benjamim, conhecida como Dona Didi. Foto: Nando Chiappetta

O cinema perdeu ontem (5/2), com a morte de Adriana Falangola Benjamin – conhecida carinhosamente como Dona Didi, que completaria 100 anos em 18 de outubro –, um dos maiores elos com a sua história.

Nascida em Roma, ela chegou ao Recife com 11 meses de idade. O pai, o italiano Ugo Falangola, e seu sócio, J. Cambieri, fundaram a primeira produtora de cinema local, a Pernambuco-Films, em 1920. Eles foram precursores do Ciclo do Recife, que deixou como legado cerca de 13 produções, realizadas entre 1924 e 1931.

Em março do ano passado, Dona Didi recebeu o título de Cidadã do Recife, proposto pelo vereador Ricardo Cruz, acompanhada pela filha caçula, também chamada Adriana.

Para se ter uma ideia do ambiente daquela época – do nascimento de Dona Didi e dos filmes em que participou, no papel de uma criança que ilustra a vinheta da companhia, entre os seus quatro e seis anos –, os maiores gênios do cinema ainda estavam criando a linguagem da arte que iria dominar o século 20.

Em 1918, Charlie Chaplin sedimentava seu papel do vagabundo em Vida de Cachorro. Em 1924, quando a imagem infantil de Dona Didi chamava a atenção do público recifense, Douglas Fairbanks alegrava as matinês com O Ladrão de Bagdá. John Ford, com Cavalo de Ferro, já mostrava que o western era o cinema americano por excelência. Na Alemanha, Fritz Lang realiza o épico Os Nibelungos, em duas partes (A Morte de Siegfried e A Vingança de Kriemhilde, totalizando mais de quatro horas de duração). O cinema já era uma global, mas ainda não falava.

Nesse mesmo ano, enquanto Marlon Brando, Lauren Bacall e Marcello Mastroianni vinham ao mundo – e todos morreram antes de Dona Didi –, ela teve sua imagem gravada nos curtas-metragens Colégio Santa Margarida, Um Passeio a Tejipió, Recife no Centenário da Confederação do Equador e Pernambuco e Sua Exposição. No ano seguinte, ela apareceu nos longas Veneza Americana, um clássico do documentário pernambucano, e a ficção A Vida de Santa Terezinha, inacabado. Desses filmes, restaram fragmentos dos dois primeiros e cópias completas dos outros dois, além do documentário, todos recuperados pela Cinemateca Brasileira na década de 1990.

Até 2010, 86 anos depois dos últimos filmes em que apareceu, Dona Didi era uma figura lendária. Foi quando o cineasta Marcos Enrique Lopes contou a sua história no curta-metragem Janela Molhada, que venceu o concurso de Roteiro Rucker Vieira, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco. Nele, Dona Didi mostra-se muito vigorosa ao relembrar o passado, que se mistura com o do próprio cinema pernambucano.

De acordo com Cristina Falangola, a filha mais velha, Dona Didi tinha problemas respiratórios. A situação se agravou e ela passou 20 dias internada no Hospital Santa Joana, onde faleceu durante a madrugada. Dona Didi foi enterrada no cemitério Morada da Paz, em Paulista, na tarde de ontem.
“Ele teve uma história de vida linda e extraordinária. Tinha um grande carisma, era leal, simples, verdadeira e deixou um grande legado para os sete filhos, netos e amigos”, comentou Cristina.


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