07
fev

Crítica: O Sacrifício do Cervo Sagrado, de Yorgos Lanthimos

07 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 19:23

Nicole Kidman e Colin Farrell em O Sacrifício do Cervo Sagrado. Fonte: Diamond Films.

Não há como dissociar o nome do cineasta grego Yorgos Lanthimos de uma tendência recente do cinema contemporâneo: aliar o discurso dos gêneros populares – o terror, em particular, que parece se adequar a todas as épocas –, com uma pegada desiludida a cerca do destino do homem nos tempos atuais. O Sacrifício do Cervo Sagrado, vencedor do Prêmio de Roteiro do Festival de Cannes 2017 (dividido com You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay), que estreia amanhã em circuito nacional, é bastante claro quanto às suas intenções.

Dono de uma carreira internacional estabelecida – e desde sempre bem apoiado em Cannes, haja vista a recepção de O Lagosta (Prêmio do Júri em 2015) e Dente Canino (Prêmio da Mostra Um Certain Regard, em 2009 –, o cineasta navega em águas tranquilas para expor suas ideias. Talvez ele seja muito corrosivo para a sensibilidade dos espectadores dos multiplex – ou muito afetado para os cinéfilos, que o consideram um tanto rebarbativo em suas ênfases –, mas também é verdade que há um esforço criativo e uma busca de autoralidade em seu cinema.

Já pelo título percebe-se que Lanthimos faz uma conexão da tradição cultural de seu país com um cinema internacionalizado e dirigido às grandes plateias. Como o espectador descobrirá – ao chegar ao fim do filme e não ver nenhum cervo em cena –, o cineasta recorre a uma célebre tragédia (Ifigênia, de Eurípedes, citada en passant num diálogo) para embasar o seu roteiro, escrito em parceria com Efthymis Filippou.

Embora o cenário seja uma cidade americana, não é o espaço que tem alguma importância – é só por causa dos atores e da língua mesmo. Para isso, ele teve à mão o irlandês Colin Farrell, que trabalhou em O Lagosta, e a australiana Nicole Kidman – duas estrelas hollywoodianas. Só com a participação deles, Lanthimos garante circuito livre para seu filme em todos recantos do mundo.

O cinema de Lanthimos é tecnicamente brilhante, especialmente na decupagem e nos elaborados movimentos de câmera, que dão ao filme uma estética particular. O problema mesmo são os sentimentos que Lanthimos coloca dentro de suas imagens.

Ele confirma a cada trabalho que os seres humanos, sejam eles crianças ou adultos, estão com os dias contados. Na trama, Steven (Farrell), um cirurgião cardíaco, e Anna (Nicole), uma oftalmologista, e os filhos Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic), de 14 e 13 anos, respectivamente, levam uma vida marcada pelo bem estar e a riqueza.

Só que Steven mantém também um relacionamento sem muita explicação com o adolescente órfão Martin (Barry Kheogan). Steven, de alguma maneira, parece querer reparar com alguma coisa o desamparo do rapaz, dando-lhe presentes e apresentando-o à família.

A partir de uma revelação que envolve o pai de Martin, uma maldição cai sobre os filhos do casal. Aos poucos, quando a trilha sonora começa a explorar músicas experimentais, assistimos a um filme de terror, um tanto rebuscado para o gênero, mas ainda sim bastante perturbador.


Veja também