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Crítica: O Que Te Faz Mais Forte, de David Gordon Green

08 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 20:55

Jake Gyllenhaal numa cena de O Que Te Faz Mais Forte

A mitologia do herói na cultura americana pós-11 de setembro tornou-se tão forte que as vítimas de atentados terroristas têm sido obrigadas a mostrar uma face que não condiz com as suas vidas. Onde está o heroísmo de alguém mostrar um corpo mutilado em cadeia nacional, durante um jogo de beisebol ou basquete, como se aquela dor mostrasse a resiliência do país? O longa-metragem O Que Te Faz Mais Forte, que estreia nesta quinta-feira (8/2) em circuito nacional, longe do burburinho dos filmes candidatos ao Oscar, condena sem meio termos como a mídia tem criado o efeito de transformar vítimas em heróis.

Dirigido por David Gordon Green, um cineasta ainda jovem nascido no Meio-Oeste, O Que Te Faz Mais Forte tem como fonte o relato autobiográfico de Jeff Bauman, um rapaz de 28 anos que perdeu as pernas durante o atentado à bomba na Maratona de Boston, em 2013. Sincero e sem a mínima vontade de se mostrar mais do que é, Bauman não poupa sua imagem e se apresenta tal como era quando foi levantar uma bandeira no final da maratona para dar uma força à ex-namorada, Erin Hurley. Jake Gyllenhaal e Tatiana Maslany, que interpretam Jeff e Erin, estão irrepreensíveis em suas respectivas criações.

Para contar a história com uma feição a mais realista possível, o roteiro de John Pollono é cronológico, sem apelar para flashbacks ou reviravoltas típicas de thrillers. O único flashback de todo o filme é utilizado com rigor e inteligência, ao fazer da curiosidade da plateia, que deseja saber como a explosão aconteceu, um trunfo para mantê-la interessada no que se desenvolve na tela. Afinal, não é pela janela da identificação que David Gordon Green e seus atores querem que o público se envolva com a história de Bauman e Erin.

Embora a narrativa se apegue ao dia a dia de Jeff, o que o filme revela são seus dilemas com a mãe, Patty (Miranda Richardson), que tenta fazer dele um garoto propaganda, e de Erin, que vai morar com ele para tentar uma vida em comum. O drama humano, face à mutilação e o aprendizado de Bauman como deficiente, não é negligenciado. Ao contrário, sua luta para se adequar à nova condição, sem pernas, é posta em evidência tanto quanto as dificuldades de seus relacionamentos. Além disso, o retrato dele como um jovem ainda um tanto relapso, que gostava de beber e se divertir, como também as confusões com Erin (nunca explicadas, diga-se), dão uma ampla visão de quem Jeff é.

Esse lado humano do personagem, apresentado ao longo da jornada para sua recuperação, está mais visível do que os efeitos especiais aplicados às pernas de Gyllenhaal. David Gordon Green nunca apela para emoções fáceis, mas o espectador não sai incólume da experiência. O reencontro com o homem que atendeu Bauman durante o acidente é muito tocante.

Com simplicidade e honestidade, O Que Te Faz Mais Forte resulta num filme que, ao condenar o heroísmo imposto pela mídia, celebra a vida e suas pequenas e grandes vitórias.


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