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Crítica: Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans

05 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 18:40

Aristides de Souza numa cena de Arábia. Foto: Embaúba Filmes/Divulgação

O cinema é uma arte impura. Desde o seu nascimento pediu emprestado nacos de outras artes para ganhar autonomia. Ainda assim, até hoje os teóricos procuram sinais de especificidades, embora sua constituição denote débitos com a literatura, a música, a pintura e o teatro, principalmente.
Às vezes, alguns cineastas parecem fazer um certo tipo de cinema que deixa à mostra nervos, tecidos e relembranças, tal qual um palimpsesto. É bem isso o que transparece no longa-metragem Arábia, o primeiro em conjunto da dupla mineira formada por Affonso Uchôa e João Dumans, em cartaz a partir desta quinta-feira (5/4)  no Cinema da Fundação/Derby e Museu.

Arábia é um filme de grande pureza, no sentido, digamos, religioso da palavra, mas podemos ver nele também, em meio ao seu desenvolvimento, suas semelhanças com a balada – como um poema ora épico ora íntimo, indeciso entre a literatura e a música. Mas, no fim e ao cabo, tudo isso, junto e misturado, dá ao filme um status de linguagem cinematográfica única, sem dúvida.

Desde o prólogo, aberto com a imagem de um rapaz numa bicicleta, sublinhada pela canção I’ll Be Here in the Morning, de Townes Van Zandt, que Arábia mostra que estamos diante de um filme que apela para a busca de uma poesia universal, marcada pelo acaso, pelos encontros e desencontros, e as muitas asperezas da vida.

Filmado em Ouro Preto e várias cidades do interior de Minas, Arábia é o estudo de um personagem que o cinema, em geral, mantém à distância: o operário desqualificado, aquele que pega qualquer trabalho, do serviço pesado de uma fábrica a carregador de sacos, entre outros tantos bicos. Por meio de uma narrativa que privilegia a palavra e as canções, tanto incidentais quanto aquelas que os personagens cantam, Affonso Uchoa e João Dumans acompanham a dura vida de Cristiano (Aristides de Souza, também conhecido como Juninho), um jovem ex-presidiário que vive de pequenos empregos.

Numa visão bem detalhada, a partir de um diário, o espectador sente na pele as dores e emoções de Cristiano, do encontro com outros amigos na mesma condição até o relacionamento com Ana (Renata Cabral), que ele conhece quando trabalha numa tecelagem. A autenticidade das locações, a honestidade das interpretações, a direção sem firulas e a melancolia do personagem marcam Arábia de uma maneira ímpar.

A narração em primeira pessoa de Aristides, forte e marcada por uma tristeza perceptível, parece música também. Como o personagem, o ator também passou por uma temporada na prisão e colaborou no roteiro. Parte das memórias de Cristiano são momentos vividos por Aristides. Antes desse filme, ele já havia colaborado com Affonso Uchoa em A Vizinhança do Tigre, um docudrama que acompanha a vida de cinco jovens de um bairro pobre de Contagem, na Grande Belo Horizonte, em que aparece com o nome de Juninho.

De certa maneira, Cristiano tem uma forte semelhança com aqueles andarilhos do meio-oeste americano dos anos 1930, saídos das páginas de John Steinbeck ou das canções de Hank Williams e Woody Guthrie. E a paisagem de Minas Gerais, de Contagem a Ouro Preto e muitas outras cidades, dão ao filme o seu caráter de road movie, das idas e vindas de Cristiano em busca do pão de cada dia. Sem dúvida, poucas vezes a labuta diária de um trabalhador, sempre lidando com condições adversas e subempregos aviltantes, ganhou uma representação tão honesta como a vista em Arábia.

Aclamado pela critica no Festival de Roterdã, Arábia teve sua première brasileira no Festival de Brasília do ano passado. Um ano após vencer com A Cidade Onde Envelheço, o cinema mineiro voltou a ser o principal vencedor de Brasília. Exibido na última noite do festival, Arábia levou o Candango de Melhor Filme, além dos troféus de Melhor Ator (Aristides de Sousa), Melhor Trilha Sonora (Francisco Cesar ), Melhor Montagem (Luiz Pretti e Rodrigo Lima) e o Prêmio da Crítica Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Um filme obrigatório para estes tempos bicudos.


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