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Crítica: Deixe a Luz do Sol Entrar, de Claire Denis

05 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 15:58

Juliette Binoche numa cena de Deixe a Luz do Sol Entrar. Foto: Imovision/Divulgação.

O poder de uma estrela de cinema é medido quando os filmes protagonizados por ela são exibidos em todos os cantos do mundo, sejam eles bons ou ruins. Tem sido assim com a carreira da atriz francesa Juliette Binoche, que completou 54 anos há menos de um mês (dia 9 de março). No ano passado, quatro filmes com La Binoche foram lançados no Brasil: as comédias Tal Mãe, Tal Filha e Mistério na Costa Chanel, a ficção científica A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell e o drama A Espera.

A melhor atuação dela, sem dúvida, é como a artista plástica, mãe e divorciada Isabelle, a protagonista da comédia romântica Deixe a Luz do Sol Entrar, que abriu a Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes, no ano passado, e que só agora estreou no Brasil. No Recife, está em cartaz no Moviemax Rosa e Silva.

Dizer que Juliette Binoche está no auge da carreira é de uma temeridade absoluta. Mas será que dizer que ela é um vulcão de sensualidade pode ser considerada uma afirmação sexista? Afinal, Juliette nunca esteve tão hot quanto neste filme – talvez na sua juventude ele não precisasse se expor tanto –, já que sua personagem, uma mulher em estado de excitação e de busca pelo amor verdadeiro, precisa de todos os seus requisitos – entre eles os físicos – para impressionar os seus parceiros, que ela procura ansiosamente, sem medo de ser infeliz.

Embora Juliette domine todo o filme, ela não está só nesta empreitada amorosa-cinematográfica. Todo o centro nervoso e criativo de Deixe a Luz do Sol Entrar, a começar pela impulsiva diretora Claire Denis (a realizadora de Bom Trabalho, talvez a melhor visão do universo masculino já feita por uma mulher), e suas outras duas parceiras, a roteirista Christine Angot (autora do romance Pourquoi (pas) le Brésil?) e a diretora de fotografia Agnès Godard, com quem trabalha constantemente.

A Isabelle de Juliette Binoche parece uma gata no cio. O filme começa com um cara gordo – e repulsivo, vamos testemunhar depois – em cima de dela. Ele se gaba de que ela demora a gozar e fala em outro namorado dela. O também cineasta Xavier Beauvois está excelente como o banqueiro abusivo, que trata Isabelle como objeto de desejo absolutamente descartável. Talvez o espectador do sexo masculino vista a carapuça ao acompanhar o comportamento do séquito de homens horríveis que cercam a bela Isabelle. Poucos se salvam, talvez um, que não tem mais o que oferecer para ela, mas que ela parece gostar mais do que qualquer outro. Do ator sem nome (Nicolas Duvauchelle) ao enigmático Sylvain (Paul Blain), que ela conhece numa boate (e com quem dança At Last, na voz de Etta James), todos os homens passam batido em saber o que Isabelle quer.

Como esse é um mistério indecifrável, Claire Denis e Christine Angot têm um sacada genial ao escalarem Gérard Depardieu como um vidente, que joga luz sobre os questionamentos e o futuro de Isabelle. Essa graça um tanto volúvel, tratada com muito respeito, parece um objeto estranho no cinema de Claire Denis, mas é totalmente bem-vindo à sua obra. Embora não seja uma adaptação, Deixa a Luz do Entrar tem uma forte influência de Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Portanto, não se espante se Isabelle e seus namorados falam demais. Afinal, é falando que nos entendemos.


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