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Crítica: Em Nome da América, de Fernando Weller

07 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 15:22

Tim Hogen, numa cena de Em Nome da América. Foto: Inquieta Cine/Divulgação

Mal iniciamos o quarto mês do ano e três documentários pernambucanos já foram lançados nos cinemas brasileiros. Depois de O Silêncio da Noite, de Petrônio Lorena, e ao lado de Saudade, de Paulo Caldas (que também chegou ao Recife na quinta-feira, embora desde janeiro já estivesse em exibição no Sudeste do País), já pode ser visto o revelador Em Nome da América, realizado pelo cineasta fluminense Fernando Weller, que ensina no curso de cinema da UFPE. O filme está em cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu. Após a sessão das 20h deste sábado (7/4), na sala do Derby, Weller participa de uma conversa mediada pelo crítico e professor Rodrigo Carreiro (também do curso de cinema da UFPE).

Em sua prova de fogo pelos festivais de cinema no ano passado, Em Nome da América passou com louvor ao conquistar público, crítica e ganhar o prestigiado Prêmio Petrobrás de Cinema de Melhor Documentário, na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em meio ao momento político em que o Brasil vive hoje, o filme parece ganhar em atualidade. Afinal, traz à baila as preocupações que os Estados Unidos nutriram em relação às mudanças políticas no Brasil, promovidas após o Golpe Militar de 1964. Apesar do mistério, pesquisadores apontam que os americanos tiveram participação importante, seja com o uso de recursos financeiros, seja com a presença de civis, principalmente no Nordeste do País.

Depois de muitos anos com o controverso tema pouco estudado e apenas alguns livros como referência, a presença americana no Brasil ganha agora uma visibilidade maior com Em Nome da América. Fernando Weller iniciou as pesquisas em 2012. Finalmente, teve acesso a arquivos americanos (em Washington e em Boston) e brasileiros, onde encontrou os traços deixados pelos jovens voluntários que vieram ao Nordeste nos primeiros anos da década de 1960, antes e depois do Golpe Militar, para prestar serviços (aparentemente assistencialistas) no programa Corpos da Paz (Peace Corps), criado pelo presidente John F. Kennedy logo que assumiu o governo.

Desde 1961, cerca de 300 jovens americanos – quase todos com 20 e poucos anos – trabalharam em comunidades do interior de Pernambuco. As imagens mostram que eles vieram para servir uma agenda política, mas que também sentiram muita afeição pelo povo pobre e que levaram a experiência como algo importante na vida deles. Desde aquela época corria a informação de que alguns deles poderiam ser agentes da CIA (espiões) infiltrados no Brasil para passar informações sobre uma possível revolução camponesa em curso. Para os americanos, a região, a partir do trabalho das Ligas Camponesas, liderada pelo advogado Francisco Julião, poderia transformar o Brasil numa próxima Cuba.

Com acesso a filmes praticamente inéditos e a participação de muitos remanescentes do Peace Corps, Fernando Weller costura o documentário com sentido de suspense, juntando as peças de um grande quebra-cabeças que há mais de 50 anos não era montado. Nos Estados Unidos, ele e sua equipe enfrentaram neve em Washington e ainda foram para os estados de Illinois, Virgínia e Carolina do Norte. Apesar de estarem entre os 70 e 80 anos, os voluntários têm lembranças vívidas dos anos que passaram aqui. Embora os depoimentos tenham como foco a ação social – uma voluntária se emociona ao lembrar que uma criança não tinha carne nos ossos para receber uma agulha –, vários carregam o Brasil no coração, falando um português fluente e até cantando clássicos da bossa-nova.

Um dos pontos mais interessantes do documentário é que Fernando Weller é muito objetivo e, poderíamos dizer, jornalisticamente isento. Ele destaca todas as informações relevantes que ajudam a jogar luz sobre a ação dos voluntários, como também do que ocorria internamente no Brasil, como a ação da Igreja para dominar os sindicatos e impedir que os agricultores e pecuaristas caíssem nas mãos da esquerda, além de exemplificar o comportamento da elite da época (num filme, o usineiro Constâncio Maranhão mostra que usa a lei do revólver para tomar conta dos seus empregados).

A partir de uma ponta solta deixada por um cooperativista de Bom Jardim, no Agreste, Fernando Weller sai à procura de um americano que veio ao Brasil antes da chegada dos voluntários dos Peace Corps. Considerado um espião da CIA, Timothy Hogen era uma espécie de eminência parda do governo americano no Nordeste. Essa figura mítica, que depois trabalharia com Robert Kennedy, é finalmente encontrada por Weller. Apesar da idade, Hogen ainda está firme e carregado de lembranças de sua passagem do Brasil Ele era um espião? Ele diz que não, que veio para cá trazendo dinheiro para os sindicatos. O que ninguém consegue explicar é que, quase 60 anos depois, a situação de pobreza permanece a mesma na região.


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