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Crítica: Severina, de Felipe Hirsch

13 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 5:37

Clara Quevedo e Javier Drolas em Severina. Foto: Rui Poças/Divulgação

O cinema mantém relações amistosas com a literatura desde seus primeiros anos de existência. Quando definiu-se como uma arte narrativa, a escrita já contava com uma tradição secular na arte de contar histórias. Desde então as duas artes andam tão juntas que é impossível viverem separadas, apesar de todas as diferenças.

O longa-metragem brasileiro-uruguaio Severina, de Felipe Hirsch – em exibição hoje no Cinema da Fundação/Museu e a partir deste sábado (14/4),  no Cinema da Fundação/Derby, quando o diretor estará presente na sessão das 20h para conversar com o público –, é uma das mais belas e honestas homenagens que a literatura já recebeu do cinema, ao evocar a magia das palavras e poder avassalador que exerce sobre a vida dos leitores.

Adaptado por Hirsch do romance homônimo do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, Severina é um drama, um film noir e um delírio amoroso – como já definiu seu autor. Quando um filme aponta tantos caminhos ao mesmo tempo, pensamos logo em chamá-lo de inclassificável. Talvez seja algo sensato, pois todas as grandes obras – do cinema, da literatura, da música, etc – estão além das classificações.

Obviamente, essa tentativa de tanoxomia é justa, porque desejamos entender uma obra de arte em sua totalidade, por mais complexa que ela seja. Severina, embora não seja um filme hermético, traz um elemento que mexe com a percepção do espectador quando embaralha o real e o irreal.

Os amantes dos livros certamente estão mais indefesos para degustar um filme como Severina, mas dizer isso é a mesmo que dizer que os homens também ficam mais frágeis quando se apaixonam. O livreiro R (seu nome nunca é pronunciado, mas essa letra aparece nos créditos finais em paralelo ao nome do ator argentino Javier Drolas) cai como um patinho quando se envolve com uma mulher que parece ter saído do mundo dos sonhos.

Ainda com uma ideia volátil de escrever um romance, o dono do sebo La Entretenida, em Montevidéu, sai de sua rotina quando recebe sucessivas visitas de uma jovem que rouba seus livros sem o menor esforço de esconder o ato. Embora veja cada movimento da mulher, ele a deixa sair com os livros e depois voltar, até quando resolve acabar com a brincadeira, tentando, na verdade, começar outra, já que está envolto no mistério da fugidia criatura.

Ana, eu em árabe, com saberemos depois, em meio ao mar de histórias de outros furtos e amores, incluindo um pai/amante do qual é impossível saber a verdade, é um enigma em movimento – ou em palavras, melhor dizendo. A paixão que eles mantém pela leitura, que depois será continuada por Ana e R, é algo que só seria possível de ser inventada na literatura latino-americana de língua espanhola, graças ao fascínio de escritores como Roberto Bolaño, Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges, entre outros.

Para dar conta desse embaralhamento entre ficção e realidade a partir de um mundo trespassado pela névoa da imaginação, Felipe Hirsch não poderia ter escolhido colaboradores melhores. Um deles é o diretor de fotografia português Ruy Poças, que, desde o ano passado, vestiu a camisa do cinema brasileiro ao participar de filmes como Deserto, As Boas Maneiras e Ferrugem.

Além disso, há que se louvar o excelente elenco. Se já não fosse por Javier Drolas, o filme ainda tem a argentina Clara Quevedo (Ana), o uruguaio Daniel Hendler e o chileno Alfredo Castro (presente em todos os filmes de Pablo Larraín). Esse conjunto de atores e o trabalho mágico de Poças, mais a mestria narrativa de Felipe Hirsch, garantem a Severina um justo status de grandeza cinematográfica. Um filme inesquecível.


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