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Crítica: A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes

07 / maio
Publicado por Ernesto Barros às 20:24

Igor, Gilmar e Mila. Foto: Espaço Filmes/Vitrine Filmes

No longa-metragem Depois da Chuva, de 2013, o casal Cláudio Marques e Marília Hughes revisitava o clima febril do movimento Diretas Já, em 1984, pelos olhos de um adolescente apaixonado que não acredita no show da redemocratização. Agora, em A Cidade do Futuro, em cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte, os realizadores estão às voltas com o aqui e agora do País, mas com um olhar ainda fortemente marcado pelo passado.

Da Salvador fervilhante da década de 1980, temos agora uma pequena cidade do interior da Bahia, Serra do Ramalho, no Vale do São Francisco. E também, como Depois da Chuva, personagens jovens em luta contra a realidade imposta pelo sistema. O tempo, o lugar e o movimento da juventude são instâncias determinantes nos dois filmes.

Os ecos do passado varrem as ruas de Serra Ramalho. Uma reportagem de TV da época mostra que, perto dali, vários municípios foram alagados pelas águas do Rio São Francisco para a construção do Lago de Sobradinho. A promessa era de que a remoção traria dias melhores, numa cidade que prometia o futuro.

Mas o relato de perdas e de destrato público são as únicas lembranças dos moradores. Sãos os netos, os herdeiros da diáspora, que interessam a Cláudio e Marília – seus desejos, modos de agir e de pensar. Eles já estão no futuro, embora a mentalidade da cidade pareça a mesma dos velhos moradores, ainda ressentidos da força com que foram arrancados de suas origens.

No vácuo dessa herança, o filme acompanha as idas e vindas de um casal a três em que o gênero é o que menos importa. A partir da experiência de três jovens da cidade, que nunca haviam feito um filme antes, Cláudio e Marília criam uma história em torno da realidade deles e de como a relação do trio afeta pais, irmãos, amigos e colegas.

Livre para namorar meninos e meninas, a professora de Teatro Mila de repente fica grávida de Gilmar, que também é professor de história na mesma escola e namora às escondidas com o vaqueiro Igor. Para concluir a história, os três pensam em casar (Gilmar e Igor) e moram juntos, com todos assumindo o papel de pais e mães do bebê de Mila.

Como era de esperar, o idílio pansexual dos três dura pouco, já que a resposta a essa ousadia virá acompanhada, além da homofobia e do racismo de praxe, de efeitos danosos no trabalho (Mila é despedida da escola e Gilmar é afastado) e na relação com a família e os amigos. Igor, um pouco mais à deriva, sofrerá na pele a violência do preconceito.

Sem cair em armadilhas dramáticas telenovelescas, Cláudio e Marília mantêm os atores como eles são no dia a dia, sem a necessidade de mimetizar recursos naturalistas. Como as situação são bastante críveis, os atores dão a impressão de gente comum, que enfrenta sem dores nem ressentimentos as durezas da vida.

O casal também é muito feliz ao recriar a realidade de Serra do Ramalho, vista como uma cidade que tem lá seus contrastes, como a festa de Halloween organizada numa escola, além das músicas que circulam pelo ar.  A Cidade do Futuro é pequeno milagre em forma do filme ao dar voz a pessoas que, de outra maneira, jamais seriam notadas. Cláudio e Marilia extraíram uma porção de vida e verdade das mais singelas.


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