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maio

Crítica: Ciganos da Ciambra, de Jonas Carpignano

09 / maio
Publicado por Ernesto Barros às 20:36

Koudous Seihon e Pia Amato. Foto: Pandora Filmes.

Dois filmes recentes – Ciganos da Ciambra, de Jonas Carpignano, que estreia nesta quinta-feira (10/5)  no Cinema da Fundação/Derby e Museu, e A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hugues, em cartaz nas mesmas salas – são a prova viva de que os métodos inventados pelos cineastas italianos do Neo-Realismo estão vivos e de que a vida captada pelas lentes das câmeras retém verdade e poesia.

No longa-metragem da dupla brasileira, três jovens e muitos moradores de uma cidadezinha baiana interpretam a si mesmos, numa história de confronto contra o machismo e a homofobia, que são o lugar comum da região. No longa-metragem italiano, a realidade de uma comunidade cigana da Calábria é vista pelos olhos de Pio, um menino de 14 anos que, de uma hora para outra, é obrigado a ser tornar o homem da casa e provê-la como se deve, com dinheiro para a sobrevivência da mãe e mais 15 familiares.

Ciganos da Ciambra é a conclusão, pelo menos até agora, de projeto que liga o cineasta ítalo-americano Jonas Carpignano e o menino Pio Amato desde 2014, quando fizeram um curta-metragem que leva o mesmo nome do longa. Antes, a vida de Pio teve outro capítulo em Mediterrânea, em 2015, quando Jonas introduziu a batalha dos africanos Aviya (Koudous Seihon) e Abas (Alassane Sy), que emigraram de Burkina Faso para tirar o que podem da Europa, enquanto sonham em voltar para casa, suas mulheres e filhos.

A relação de amizade entre Pio e Aviya ainda é um dos esteios de Ciganos da Ciambra, mas agora o filme é todo de Pio. O cinema já foi muito pródigo em contar histórias de meninos que são forçados a se tornarem homens em circunstâncias adversas, como Oliver Twist ou Antoine Doinel, o jovem alter ego de François Truffaut. Ao contrário de tantos outros, o longa-metragem de Jonas Carpignano tem o mérito de se abster a qualquer tipo de autocomiseração.

Fumando como uma chaminé e bebendo cerveja como os adultos, principalmente o seu role model, Cósimo, o irmão mais velho, o menino não se reconhece nos sobrinhos e nos primos, que seguem o mesmo estilo de vila dele. Só que Pio vê seu o lugar ao lado dos adultos, fazendo o que eles fazem e driblando as batidas da polícia, que a todo momento aparece para ver o que eles roubaram ou em que estão metidos.

Além dessa questão do bildungsroman, Ciganos de Ciambra trata de um problema maior, como o preconceito que grassa em todas as partes da Europa, seja contra os ciganos ou africanos. Depois de uma batida em que os homens da casa são levados para a cadeia, Pio decide pôr em prática o aprendizado de furtos e roubos de carros para levar dinheiro à mãe Iolanda, a matriarca da família.

Carpignano extrai de Pio não só sua bravura juvenil, mas suas fraquezas de menino, seu medo de elevador, de trens rápidos e de mostrar que ainda é analfabeto. É verdade que a não-existência de um roteiro romanesco, com viradas e personagens que só servem para comprovar atitudes heroicas, não geram tanto frisson.

Mas isso é pouco ou quase nada em frente ao milagre desse encontro: o crescimento vivo de Pio, que vai errar fragorosamente e testemunhar que a fidelidade a um amigo é o que ele mais preza, o que realimente faz ele se sentir triste. Nenhum filme é a realidade nua a e crua, mas a tentativa de Jonas Carpigano em eternizar essa fatia de vida de um menino e de uma comunidade, numa situação tão cruel, é digna de louvor. Sua direção, afetiva para capturar a poesia e o prosaico da existência, é uma raridade. Ciganos da Ciambra é o primeiro filme a unir o produtor brasileiro Ricardo Teixeira e o cineasta americano Martin Scorsese. Que venham muitos outros.


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