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Crítica: Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg

30 / maio
Publicado por Ernesto Barros às 19:55

Julila Konrad, Erasmo Carlos e Jaloo. Foto: Fábio Braga/Divulgação

Se o clima do Brasil estivesse mais ameno, Paraíso Perdido, em cartaz a partir desta quinta-feira (31/5), passaria despercebido como tantos outros filmes brasileiros que têm entrado e saído dos cinemas sem quase ninguém assisti-los. Mas diante de tudo o que está acontecendo, com a desesperança batendo forte em tantas portas, Paraíso Perdido parece um filme certo na hora certa. Ao contrário de respirar o clima do momento, o quarto longa-metragem de cineasta baiana, radicada no Rio, Monique Gardenberg acaba sendo um refúgio para quem deseja respirar, por pelo menos duas horas, ares menos pesados que os da complicada situação do País.

Não que o filme pretenda levar o espectador para uma mítica Pasárgada, a terra da vida boa, onde todos são felizes. Nem mesmo é tão alto astral quanto o hilário Ó Paí, Ó, que Monique dirigiu há 11 anos. A violência e a intolerância, tão comum nas ruas, também se fazem presentes em Paraíso Perdido, mas aqui há mais amor, carinho e afeto. Não há dúvidas que a cineasta transporta o público para um lugar igualmente prazeroso, a boate Paraíso Perdido, em que uma família de cantores da noite vive cercada de música e das marcas deixadas pelas paixões desenfreadas.

Da primeira à última cena, Paraíso Perdido parece uma jukebox com as canções românticas – ou bregas, como queiram – que fizeram a trilha sonora do povo brasileiro. Elas não são só apresentadas a cada noite na boate, como também são partes integrantes da narrativa e de cada personagem. Como cada ator precisa cantar, Monique escolheu um elenco que se mostra afinado com o repertório. Para começar, o patriarca da família é interpretado pelo tremendão Erasmo Carlos, que há 34 anos não fazia um filme. O gaúcho Júlio Andrade está excelente, soltando a voz e sentindo na pele a perda de um grande amor. Seu Jorge também está muito à vontade. E a pernambucana Hermila Guedes, como sempre, é uma explosão de vigor e sensualidade.

Além desses artistas já estabelecidos, a diretora trouxe novos talentos para o filme, como a atriz e cantora pernambucana Julia Konrad e o cantor paraense Jaloo. Embora não cante, Lee Taylor faz um personagem que terá uma importante presença na vida de todos os membros do clã. Policial civil, ele é contratado pelo patriarca para cuidar da segurança da casa, especialmente de Imã (Jaloo), o jovem drag queen que, além de ser a principal atração da Paraíso Perdido, é vítima de ataques homofóbicos. Marjorie Estiano, Humberto Carrão, Malu Galli e Felipe Abib fecham o elenco.

Também escrito por Monique, o roteiro é quase uma colagem de cenas que poderiam estar numa telenovela, mas ela dribla o que poderia ser excessivo graças ao controle que exerce sobre os atores. Nem mesmo Jaloo, em seu primeiro filme e muito requisitado na história, ultrapassa os limites que poderia fazer do filme um dramalhão. Ainda assim, todos os temas ligadas à tragédia estão presentes, como traição, assassinato, prisão e doença, que parecem ser a sina da família.

Com uma carreira que teve início como produtora e diretora de shows e videoclipes, o universo da música não tem mistérios para Monique Gardenberg. Para dar conta dessa vertente popular do cancioneiro brasileiro, ela contou com a suporte do cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Ao todo, a dupla pinçou 20 canções que explodem na tela a cada cinco minutos.

A fotografia quente e hipercolorida de Pedro Farkas cria o espaço ideal para as apresentações na boate, que ainda ganham mais vida com a direção de arte de Valdy Lopes e o figurino de Cássio Brasil. Sem esse conjunto de forças e a interpretação dos atores-cantores, talvez as canções não tivessem o poder que eles têm quando surgem no filme, muitas vezes como um personagem à parte.

São particularmente bem-sucedidas as interpretações de Jaloo em Impossível Acreditar que Perdi Você (Márcio Greick), Jamais Estive Tão Segura de Mim Mesma (Raul Seixas) e Você é tão Vaidoso, a versão de You´re So Vain (Carly Simon). Júlio Andrade arrasa em Escalada (Augusto César), De que Vale ter Tudo na Vida (José Augusto) e Todo Sujo de Batom (Belchior). Claro, não poderia faltar Roberto Carlos, numa ótima cena com Erasmo e Júlio dando a deixa para a voz do Rei continuar 120… 150… 200 Km por Hora.


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