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Crítica: Amores de Chumbo, de Tuca Siqueira

03 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 14:11

Aderbal Freire Júnior e Juliana Carneiro da Cunha. Foto: Elo Company/Divulgação

Amores de Chumbo, o primeiro longa-metragem da cineasta pernambucana Tuca Siqueira, está em cartaz em sessões exclusivas no Cinemark RioMar. O filme marca a abertura do Projeta às 7, uma parceria entre a distribuidora Elo Company e a Rede Cinemark, com sessões de segunda a sexta-feira, sempre às 19h, em 19 cidades brasileiras. Depois dessas exibições, em caráter de pré-estreia, o longa ganha lançamento oficial no próximo dia 14. Amores de Chumbo também é o primeiro longa do selo Elas, recém-criado pela Elo, voltado exclusivamente para filmes realizados por mulheres.

Estreia auspiciosa de Tuca no cinema de ficção, Amores de Chumbo teve a primeira exibição na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2017. Com segurança de veterana – já realizou inúmeros curtas e documentários de longa duração –, a cineasta desnuda seu coração e sua história pessoal ao criar três personagens marcados pela violência da repressão política da década 1970 e os fantasmas do passado que assombram o presente delas.

Filha de um ex-preso político – o vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira –, Tuca já havia realizado dois documentários sobre ex-militantes políticos. Depois desse contato, ela disse, numa entrevista, que desistiu de fazer um filme de época para se concentrar numa história sobre a vida atual de quem lutou contra a ditadura militar e que hoje está com 65/70 anos.

A decisão, além de poupá-la de uma narrativa já conhecida, acabou por fazer com que criasse uma história envolvendo uma escritora expatriada na França que vem ao Recife para rever um antigo amor da juventude, que lutou com ele e que há 40 anos está casado com a melhor amiga dela. Embora Tuca não mostre uma imagem sequer dos anos anos de chumbo, os signos da época e a memória dos personagens fazem com que os espectadores viajem ao passado.

Com sensibilidade à flor da pele e nenhuma concessão aos excessos românticos, Tuca cria perfis delicados e duros dos três personagens. Eles mergulham na dor e não se escondem dos delitos cometidos em nome da paixão. Quando acontecem os encontros entre a escritora Maê (Juliana Carneiro da Cunha, de Lavoura Arcaica) e o casal Miguel (o diretor de teatro cearense, radicado no Rio, Aderbal Freire Júnior) e Lúcia (a pernambucana Augusta Ferraz), dá para sentir no ar o misto de espera e acerto de contas, temperados com a saudade e a decepção.

Conta muito para o sucesso do filme a eficiente e inteligente decupagem das cenas, principalmente o encontro sempre a dois entre os personagens, que também incluem Ernesto (Rodrigo Rizla, muito bom), o filho de Miguel e Lúcia. Através de longos planos, a tela em cinemascope (a fotografia é Beto Martins) acolhe-os em posições laterais, permitindo que se movam e criem um tensão realística, sem que o filme tenha problema de ritmo.

Mas é bom esclarecer, mais do que técnica Amores de Chumbo é um filme que toca com profundidade nossas presunções acerca da felicidade. Como acontece em tantas vidas, só o silêncio e o esquecimento, quando possível, são capazes de apaziguar a perda de um grande amor. Amores de Chumbo é uma grata e bela surpresa, uma verdadeira pérola cinematográfica.


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