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Crítica: Promessa ao Amanhecer, de Eric Barbier

07 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 15:01

Pierre Niney e Charlotte Gainsbourg. Foto: Bonflm/Divulgação

O filme escolhido para abrir o Festival Varilux de Cinema Francês no Recife foi a cinebiografia Promessa ao Amanhecer, de Eric Barbier, uma adaptação da novela homônima de Romain Gary (Kacew, de nascimento, que nasceu em Wilno, então Polônia, hoje, Lituânia, e escreveu em francês). Trata-se da famosa novela em que o escritor conta a relação dele com a mãe, a judia polonesa Nina Kacew, que se considerava francesa. O relato, publicado em 1960, quando Gary tinha 44 anos, é uma homenagem e um exorcismo em torno da sufocante presença materna, que, apesar de levá-lo a realizações pessoais e atos de heroismo, era também pontuado por situações que o marcaram profundamente, para o bem o para o bem, por toda a sua vida.

Embora não seja um dos escritores mais conhecidos fora da França, pelo menos daqueles que têm seus livros sempre à mão nas livrarias, no seu país ele é conhecido por um caso história de falcatrua. Em 1976, foi o primeiro e único escritor francês a ganhar um segundo prêmio Goncourt, que tem como regra apenas um prêmio por escritor. A história de sua jogada ardilosa, feita para desmascarar escritores e jornalistas, que ele acusava de desonestidade, só foi conhecida postumamente quando explicou que era ele quem estava por trás do romance La Vie Devant Soi (no cinema Madame Rosa–- A Vida à Sua Frente, que representou a França no Oscar de 1978).

Como cinebiografia, mesmo parcial, Promessa ao Amanhecer não é diferente de tantas outras, que chegam aos cinemas a cada semana. Produzido com apuro e uma reconstituição época das mais competentes – nenhuma surpresa aí –, o filme ganha pontos por dois aspectos: a revelação dessa ligação simbiótica entre mãe e filho beirando as raias da loucura e do delírio, e a explosiva química que movem Charlotte Gainsbourg e Pierre Niney (ator da Comédie-Française, que interpretou Yves Saint-Laurent no filme homônimo de Jalil Lespert, em 2014), como Nina e Romain, mãe e filho.

Eric Barbier e sua corroteirista Marie Eynard usam um artifício muito comum para quebrar a cronologia dos fatos: mostrar em que tais situações Romain Gary se encontrava quando escreveu o livro. Morando no México com a primeira mulher, a britânica Lesley Branch (Catherine McCormack, de Coração Valente e Em Luta Pelo Amor), ele tem um surto em que acredita que está com um tumor no cérebro. A partir desse episódio, ele vai contando sua história e a da mãe, desde seus seis anos, quando viviam na Polônia, até a ida a Nice, já com a idade de 14 anos.

Lado a lado em tudo na vida, Nina Kacew impunha a Romain a realização de tudo o que deseja para o filho: que ele seria escritor, embaixador da França e aviador. Num clima febril próprio das vidas excepcionais, as alucinadas predições de Nina vão empurrando Romain, que não sairá ileso da relação, como sua história iria demonstrar. Ainda hoje, pairam histórias conspiratórias acerca de seu casamento com a atriz Jean Seberg, com quem teve filhos e a dirigiu em dois longas-metragens, até suicídio dele em Paris, aos 66 anos. Mas Promessa ao Amanhecer não chega até aí, mas registra com elegância e certo academicismo, como ele foi moldado pela insuperável autoestima de sua mãe.


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