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Crítica: A Excêntrica Família de Gaspard, de Antony Cordier

07 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 15:10

Félix Moati e Laetitia Dosch. Foto: Bonfilm/Divulgação

Algumas comédias francesas são tão francesas que, não obstante o enorme sucesso local e nos países francófonos, passam em branco no estrangeiro. Mas as comédias mais sofisticadas, românticas ou familiares, ao contrário, são muito bem-recebidas em todo mundo. Tanto que grande parte delas fazem parte do cardápio do Festival Varilux de Cinema Francês, que começa em mais de 80 cidades brasileiras.

Apesar de serem queridas pelo público, mesmo assim essas comédias não são muito amadas pelos críticos. O longa-metragem A Família Excêntrica de Garpard não é tão anódino como tantos outros exemplares do gênero. Quem não se importa com julgamentos apriorísticos, e busca entretimento e um certo verniz cultural, não terá do que reclamar.

Muitos vão até dizer que o terceiro longa-metragem de Antony Cordier – Para Poucos, seu primeiro filme, foi lançado no Brasil em 2010 – tem algum parentesco com o cinema independente americano, alguma coisa próximo do estilo de Noah Baumbach, talvez por causa da semelhança entre A Família Excêntrica de Gaspard (Gaspard Va au Mariage) e Margot e o Casamento (Margot at the Wedding), de 2007, que se traduzem melhor em seus títulos originais.

A Excêntrica Família de Gaspard não é um filme desinteressante, até porque junta a leveza da comédia familiar com uma pitadinha de psicanálise, pois Gaspard (Félix Moati, muito bom) volta para casa depois de algum tempo distante distante do pai e dos irmãos, para, nos dias que antecedem o novo casamento do pai, separar o forte cordão umbilical que os unem e seguir em frente. O tema da volta, seja do filho pródigo ou não, quase sempre tem uma forte conotação bíblica, sobre alguém que volta para arrumar ou salvar alguma coisa.

Neste filme, opera-se o contrário. Apesar de todo o que une Gaspar ao pai e aos irmãos, o que ele quer é se separar do excessivo amor familiar, que tem como símbolo um zoológico erigido pelo pai, onde todos nasceram e foram criados. Autor da história, Antoni Cordier não vai direto assim ao assunto. A maneira como ele leva Gaspard de volta para casa já é, em si, um dispositivo pronto para levantar questões.

Ao acaso, Gaspard encontra Laura (Laetitia Dosch, a ótima atriz de Jovem Mulher), que entrou de gaiata num protesto esquisito e é meio que salva por ele. Sem muito tato e direto ao assunto, Gaspard contrata Laura para acompanhá-lo à festa de casamento como namorada. Essa proposta, um tanto inusitada, mas não tão estranha assim, vai render as cenas mais dramáticas do filme, principalmente quando Laura vai enfrentar o ciúme de Coline (Christa Théret, revelada em Renoir), que tem um relacionamento tão grudado com o irmão que ela não vê com bons olhos, mesmo que não seja a namorada dele. O acerto de contas com o pai, Max (Johan Heldenbergh), e o irmão, Virgil (Guillaume Gouix), é mais normal, apesar de algumas arestas.

Tirando a fixação de Coline com uma pele de urso, que ela carrega dia e noite, e certo comportamento infantil; e as estripulias de Max com as ex-namoradas; a família não é tão excêntrica assim. É com uma certa dose de graça e gravidade que Antony Cordier conduz o caminho que os irmãos terão que tomar no futuro.

O fato de o filme se passar num lugar exótico e de aura passadista também agrega um nível de emoção diferente a quem o assiste. Em alguns momentos, Cordier se permite relaxar e mostrar os irmãos sob outra luz, exemplificada na bonita sequência em que os três dançam numa montagem marcada pelo piscar de uma luz estroboscópica.

A Excêntrica Família de Gaspard é envolvente, tem um bom ritmo e não é um passatempo esquecível. Além do bom artesanato de Cordier, o time de atores está muito bem e confirma uma tradição das mais notórias do cinema francês. Felix Moati, Leatitia Dosch, Guillaume Gouix e Christa Théret, entre os 20 e 30 anos, ainda vão dar o que falar.


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