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Crítica: Canastra Suja, de Caio Sóh

12 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 15:19

Adriana Esteves e Marco Ricca. Foto: Ariela Bueno/Divulgação.

Quem diz que o cinema brasileiro não tem feito grandes filmes é porque não tem saído de casa. Ou quando sai não encontra mais os filmes em cartaz. Tem sido essa a sina das produções nacionais recentes, que não se sustentam por mais de duas semanas em exibição – e, olhe lá, se não apenas uma. É o caso de Canastra Suja, de Caio Sóh, que tem amargado retiradas bruscas de cartaz, o que tem impedido que os espectadores tenham acesso ao filme, um dos mais instigantes do ano até agora.

A partir desta quinta-feira (5/7), o filme tem uma nova chance na tela do Cinema da Fundação/Derby e Museu (que está de volta com sua programação normal, depois um de pouco mais de um mês desativado para atualização técnica). Agora, quem só ouviu o bafafá de Canastra Suja vai poder checar se o filme é tudo isso.

Como nem sempre é fácil atingir um nível alto de acerto, quanto mais de perfeição, é inegável que Caio Sóh fez um filme poderoso e com atuações magistrais. Quarto longa-metragem do jovem roteirista e diretor, o primeiro depois do fraco Por Trás do Céu, que ganhou o Calunga de Melhor Filme no Cine PE 2016, Canastra Suja faz um comovente e doloroso retrato de uma família suburbana carioca, muito longe das telenovelas da TV Globo.

É preciso que o espectador se desarme de moralismos diante dessa família, formada por um pai alcoólatra, uma mãe devorada pela insatisfação e três filhos perdidos no caminho da vida (uma moça usando o poder do que tem para dar, um rapaz perdido e uma menina autista, inocente como qualquer criança). Imagine todos os problemas possíveis caindo na cabeça deles, do desentendimento entre pai e filho à falta de grana e de prognósticos de futuro.

Por vários motivos, o universo de Canastra Suja lembra os casos da vida como ela é, de Nelson Rodrigues. A diferença é que o dramaturgo carioca, que nasceu em Pernambuco, viveu num Brasil há muito tempo desaparecido. O Brasil de hoje, da periferia e dos subúrbios, é outra coisa.
Caio Sóh monta um série de cenas em que o pai (Marco Ricca), a mãe (Adriana Esteves) e os filhos (Pedro Nercessian, Bianca Bin e Cacá Ottoni) vão ao fundo do poço, por culpa deles ou não – o gatilho pode ser um amigo, um namorado ou um patrão, tanto faz.

Nesse psicodrama familiar, em que o diretor adiciona suspense em momentos impensáveis, o que não falta é a capacidade de deixar o público em estado de desconforto. No entanto, mesmo que o incômodo seja grande, o saldo para quem assiste é grande. Pode ser que muita gente vire agora o rosto e ache tudo horrível ou que aquelas pessoas merecem morrer na miséria. Quem quiser que atire a primeira pedra.


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