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Rua não é estacionamento público. Ponto final.

29 / set
Publicado por Roberta Soares às 16:00

Fotos: Bernardo Soares/JC Imagem

 

Roberta Soares
betasoares8@gmail.com
Rua não é estacionamento público. Ponto final. Esse é o princípio desse post e reportagem publicada na versão impressa do JC deste domingo (30/9). É discutir até onde vai o direito do cidadão de transformar as vias em vagas privativas para estacionar o(s) carro(s) por não ter como acomodá-lo na residência. É mostrar que, mesmo sendo direito no entendimento de alguns, o hábito de ocupar o espaço público tem transformado as vias do Recife – foco da matéria – num mar de carros, sem espaço, quase sempre, para o pedestre caminhar e até para outros veículos circularem. A adoração e dependência do automóvel pela sociedade atual não se reflete apenas nos congestionamentos diários, que não têm mais hora ou lugar para acontecer. Os 4 mil veículos acrescidos à frota do Recife todos os meses trazem consequências muito além da circulação no sistema viário. Parados, eles também provocam danos. E grandes.

Não é à toa que o estacionamento proibido, quando somada todas as infrações relacionadas a esse tipo de desrespeito à legislação de trânsito, representa quase 50% a mais do que a multa que lidera o ranking recifense em 2012, que é o avanço de sinal. Até agosto, eram 62.459 multas de estacionamento proibido. O uso da via pública para acomodar carros tem sido tão comum que chegamos ao ponto de ver anúncio de imóveis oferecendo a rua como estacionamento. É o caso de um edifício em construção na Rua Arnoldo Magalhães, em Casa Amarela, na adensada Zona Norte do Recife, cuja propaganda destaca que a rua é “livre para estacionamento”. Como assim?

Anúncio de prédio em construção diz que “rua é livre para estacionamento” como forma de atrair compradores.

Não vamos abordar nesta reportagem a ocupação das calçadas pelos automóveis, o que daria uma matéria à parte. O enfoque é o estacionamento na rua, especialmente quando ele é permitido pelo poder público. O que é muito comum na cidade. A Companhia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), responsável por gerir a circulação da capital, exibe números mostrando que o órgão tem mudado de concepção e entendido que é chegado o momento de restringir, cada vez mais, o estacionamento de carros nas ruas da cidade. Das 16 grandes intervenções feitas nos últimos dois anos, tendo à frente Maria de Pompéia Pessoa, 130 ruas sofreram algum tipo de restrição do espaço destinado ao estacionamento de carros. Ações semelhantes raramente aconteciam antes. Mesmo assim, a conta não fecha.

Na opinião de quem entende de mobilidade, essa conta não será equiparada nunca porque não há páreo para o automóvel. O carro é um veículo imbatível, principalmente pelo aspecto do conforto, da agilidade (quando consegue andar) e da privacidade que ele proporciona. Por isso, já passamos da hora de limitar, restringir e dificultar o seu uso. “Não é a propriedade. É a forma de utilizá-lo. A taxa de motorização do Recife ainda é baixa. É como se, para cada dez habitantes, existissem quatro carros. Sob o enfoque do estacionamento, as pessoas precisam ter consciência de que não podem ocupar as ruas para deixar seus carros parados. Precisam acomodá-los em suas garagens. Se não as têm, então é preciso rever a aquisição do veículo”, critica o professor de engenharia da UFPE, Maurício Pina, mestre em transporte e crítico da motorização da cidade.

Bom com números, Maurício Pina fez uma simulação de quanto custaria deixar um carro acomodado num vaga na rua, por 11h, todas as noites, durante um mês, imaginando que ela passasse a ser cobrada pelo poder público. A Rua do Futuro, no bairro dos Aflitos, foi usada como exemplo. “Dos 2 mil metros de extensão da via, supomos que 1.600 metros poderiam ter estacionamento de um dos lados. Como os veículos medem aproximadamente seis metros, seriam 266 vagas. Ao valor de R$ 5 as três primeiras horas e R$ 2 as horas excedentes. O custo pelas 11h noturnas (das 21h às 8h), por vaga, seria de R$ 21. Por dia, as 266 vagas juntas renderiam R$ 5.586 e, por mês, a arrecadação chegaria a R$ 167.580. Isso apenas numa rua. Vejam o quanto poderia custar a ocupação do espaço público”, lembra o engenheiro.

 

Ruas da Madalena estão sendo usadas por concessionárias para vender carros

Muita gente – e esse número só aumenta – estaciona o(s) carro(s) nas ruas. Exemplos não faltam pela cidade. Vias como as Ruas Guedes Pereira (Parnamirim), Antônio de Castro (Casa Amarela), Navegantes e Setúbal (Boa Viagem), e Aurora (Santo Amaro), são algumas. Muitas, têm apenas sete metros de largura e, mesmo assim, os carros estacionam, às vezes autorizados pela CTTU, às vezes não, nos dois lados. Tecnicamente, um carro ocupa 2,5 metros de largura numa rua. Se ela possui sete metros, jamais poderia ter veículos estacionados dos dois lados porque só restariam dois metros para a circulação. Para possuir estacionamento dos dois lados, segundo Maurício Pina, uma via deve ter, ao menos, 12 metros de largura, como a Rua dos Navegantes. E, mesmo assim, é preciso pesar as características e a funcionalidade da via no conjunto da circulação da área.

 

Taxa de motorização do Recife
388,2 carros para cada mil habitantes
Ou seja, para cada 10 habitantes, existem 4 carros
Crescimento da frota veicular da capital
1961 – 12 mil veículos
2000 – 335 mil veículos
2012 – 594.509 veículos

* em agosto de 2012
Em 12 anos, a frota do Recife cresceu 77%
8,2% foi o crescimento da frota entre 2010 e 2011
Em 2019, se esse crescimento se mantiver, Recife terá o dobro da frota, ou seja, mais de um milhão de carros
A atual frota do Recife, enfileirada, totalizaria 3,6 mil km. Ou seja, mais do que a distância entre o Recife e o Rio de Janeiro, por exemplo, que é de 2 mil km


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