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Assaltos a ônibus no Grande Recife: as mesmas linhas, locais, dias e horários há pelo menos seis meses

19 / Jun
Publicado por Roberta Soares às 11:00

 

Avenida Agamenon Magalhães registrou 44 assaltos entre janeiro e maio deste ano. A via ocupa o segundo lugar no ranking há cinco meses. Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Avenida Agamenon Magalhães registrou 44 assaltos entre janeiro e maio deste ano. A via ocupa o segundo lugar no ranking há cinco meses. A linha PE-15-Boa Viagem também está entre as dez mais assaltadas desde o início do ano. Foto: Diego Nigro/JC Imagem

 

Peço desculpas aos leitores por voltar a falar dos assaltos a ônibus. No dia 8 de maio, esse foi o tema abordado no Blog De Olho no Trânsito. E, agora, voltamos a falar sobre ele. Mas é impossível ignorar os assaltos diante dos recentes episódios, tanto nos ônibus como no metrô. E a perspectiva é piorar. Quem está no transporte coletivo vai entender o que falo. Já estamos com 651 assaltos oficialmente registrados até maio deste ano pelas empresas de ônibus no Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT), enquanto em 2015 tínhamos 356 ocorrências no mesmo período.

A decisão do governo de Pernambuco de colocar pessoal para pensar estratégias em diversas esferas com o objetivo de somar esforços e conseguir dar um freio nas estatísticas vem em boa hora. Até porque a situação está começando a fugir de controle, com ladrões roubando ônibus sem ao menos se dar ao trabalho de usar uma arma de fogo. Vão de faca mesmo e até simulando um revólver. Além disso, as estatísticas também exigem uma resposta rápida. Na cabeça do cidadão, é incompreensível ver que os dados oficiais da violência no transporte coletivo revelam que os alvos dos ladrões são sempre os mesmos. Linhas, corredores, dias e horários de maior incidência de assaltos se repetem há, pelo menos, cinco meses. As dez linhas que mais foram assaltadas são as mesmas entre janeiro e maio de 2016. Elas apenas trocam de lugar entre si. A exceção, pasmem, da líder do ranking – a Zumbi do Pacheco/Barro (Loteamento) –, que domina a posição em todos os meses. Não é indignante?

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A reportagem tentou ter acesso ao ranking do ano passado com o GRCT para ver se a permanência das linhas continuava a mesma, mas não conseguiu. A informação teria que sair da Secretaria de Defesa Social (SDS), que por sua vez argumentou não divulgar os dados detalhados para não estigmatizar as linhas alvo de maior violência. Os locais continuam os mesmos, assim como os dias e os horários. Até maio, a BR-101 Sul lidera com 70 ocorrências, seguida da Avenida Agamenon Magalhães (44) e do trecho da antiga BR-101 Sul (38). Sábado e domingo também permanecem como os dias de maior ocorrência, com 108 casos cada um. Até abril, o domingo estava um pouco à frente, mas o sábado encostou. 19h e 21h são os horários mais frequentes das investidas.

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REAÇÃO

É preciso atuar em várias frentes. Além de polícia nas ruas, guiadas por esse mapeamento do próprio governo, investir em tecnologia para estimular a população à denunciar e os ladrões a temer também é fundamental. E só depende do governo incorporar algumas ferramentas do tipo. A Cittati, via o APP Cittamobi, já disse que disponibiliza, sem custo, o uso do botão de pânico existente no aplicativo e que pode ser acionado por qualquer cidadão, vítima ou não de assalto.

A Cittati também se dispõe a instalar botões de pânico nos veículos, ao lado dos motoristas. Nesse caso, entretanto, haveria o custo de instalação. Como o GRCT tem um contrato com a espanhola Etra para implantação do Simop (Sistema Inteligente de Monitoramento da Operação) e está amarrado a esse contrato – embora não tenha dinheiro para executá-lo totalmente –, a entrada da Cittati teria que ser pelas empresas de ônibus, que já têm contrato com a provedora de tecnologia. Ou seja, sem custo. Seria necessário negociar apenas o orçamento de implantação dos botões de pânico. De toda forma, é mais um recurso no combate aos assaltos.

Um projeto piloto chegou a ser testado nos coletivos da Empresa Metropolitana, a mais assaltada do sistema, em 2013, e os assaltos zeraram nas linhas em que o botão de pânico foi instalado. Mas o sistema só funciona, seja pelo app ou pelo equipamento no coletivo, lembra a Cittati, se estiver incorporado à rede de segurança do Estado para que o policiamento reaja. Caso contrário, não tem sentido.

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Sobre o uso do botão de pânico no ônibus há consenso, mas o uso do APP rende questionamentos feitos pela SDS. Como o cidadão, seja passageiro ou operador, iria usar o celular num ônibus que está sendo assaltado? E os trotes, não seriam comuns para tirar o sossego do Ciods? A Cittati, entretanto, tem argumentos de defesa. Diz que o botão de pânico existente no CittaMobi foi criado com o propósito de ser usado por qualquer cidadão, vítima ou não do assalto.

O recomendado, inclusive, não seria a utilização pelos passageiros no momento da abordagem, mas após o fato ou antes, no caso de suspeita. E, principalmente, por outras pessoas que possam estar vendo o fato. Sobre a possibilidade de trote, a empresa também rebate. Argumenta que para acionar o botão pelo aplicativo é preciso estar cadastrado no APP, sendo fácil para a polícia identificar os “espertos” e puni-los. Em Salvador (BA), onde a ferramenta foi testada, a polícia chegou a executar prisões.


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