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Oct

Primeiro trecho recifense do Plano Diretor Cicloviário (PDC) começa a ser implantado. Confira detalhes do projeto

20 / Oct
Publicado por Roberta Soares às 20:00

 

Ponte Buarque de Macedo, que seria o traçado lógico para a rota que começa na Avenida Rio Branco, ficou de fora. Fotos: JC Imagem
Ponte Buarque de Macedo, que seria o traçado lógico para a rota que começa na Avenida Rio Branco, ficou de fora. Fotos: JC Imagem

 

Começam a ser implantados na próxima semana os cinco primeiros quilômetros do Plano Diretor Cicloviário do Grande Recife (PDC) sob responsabilidade do governo do Estado. Na avaliação de ciclistas e do próprio governo, o traçado, que terá a ordem de serviço assinada nesta sexta-feira (21/10), está longe de ser o ideal para quem utiliza a bicicleta como transporte, mas é a efetivação de um projeto que deveria ter sido executado há mais de três anos e que sai do papel depois de muita luta e negociação com os gestores do trânsito. A rota será bidirecional e ligará o Marco Zero, no Bairro do Recife, à Fábrica Tacaruna, no limite do Recife com Olinda. A previsão é que fique pronta em seis meses.

 

Sabemos que a rota não atenderá à exigência de parte dos cicloativistas, que queriam uma infraestrutura nas Pontes Buarque de Macedo e Princesa Isabel, o que não foi possível. Mas isso não pode virar uma polêmica. Estamos avançando. Não estamos subtraindo, mas somando. São conquistas que estão mudando a consciência do poder público e da sociedade”,

Felipe Carreras, secretário de Turismo de Pernambuco

 

O eixo cicloviário terá quase um quilômetro de ciclorrota (quando veículos e bicicletas dividem o mesmo espaço e o equipamento não tem segregação física, apenas sinalização horizontal e vertical) e apenas um quilômetro de ciclovia (quando há total separação do tráfego de veículos). O restante será de ciclofaixa (quando a segregação é feita parcialmente, apenas por tachões e sinalização). Em dois pontos – na Ponte Princesa Isabel (entre a Rua da Aurora e a Praça da República) e no pontilhão que corta a Avenida Agamenon Magalhães e liga a Avenida Jayme da Fonte, em Santo Amaro, à Rua Odorico Mendes, em Campo Grande – os pedestres não contarão com infraestrutura e terão que descer da bicicleta.

Na Ponte Princesa Isabel, assim como no pontilhão sobre a Agamenon Magalhães, o pedestre terá que descer da bicicleta
Na Ponte Princesa Isabel, assim como no pontilhão sobre a Agamenon Magalhães, o pedestre terá que descer da bicicleta

Os pontos que geraram polêmica desde o início da elaboração do projeto, inclusive com um período para apresentação de propostas de solução para os conflitos, continuam. Em apenas um ponto a Associação Metropolitana dos Ciclistas da Região Metropolitana do Recife (Ameciclo) conseguiu convencer o governo do Estado e, principalmente, a CTTU e a Secretaria de Mobilidade do Recife: a implantação de um trecho inferior a 200 metros de ciclofaixa na Rua da Aurora e, não, sobre a calçada do Cais da Aurora. Outra vitória é a retirada de 70 vagas de estacionamento para dar lugar a uma ciclovia no trecho.

 

O único mérito do projeto é que ele deixa de ser letra para ser executável. Mas não cumpre o que foi traçado no PDC. Os governos não tiveram coragem de redimensionar as faixas dos carros e, mais uma vez, pensaram numa rota turística e, não, para quem usa a bicicleta como transporte”,

Cristiane Crespo, da Ameciclo

 

A rota ciclável começará na Avenida Rio Branco (que será o primeiro boulevard do Recife e está fechada ao tráfego de veículos desde 2014), mas não seguirá em frente pela Ponte Buarque de Macedo, o que seria o lógico. Segundo a Secretaria de Turismo do Estado, foi impossível convencer a CTTU a manter o traçado por causa da área de giro dos ônibus BRT do Corredor Norte-Sul, que entram na ponte, além do volume de veículos que passam no trecho. Assim, ela seguirá como ciclorrota pela Rua Madre de Deus, depois seguirá pela Rua Marquês de Olinda e Ponte Maurício de Nassau sempre à direita.

Rota seguirá pela pista local da Agamenon Magalhães. Primeiro trecho terá 5,1 km e faz parte de um projeto de 30 km que ligará o Recife a Igarassu
Rota seguirá pela pista local oeste da Agamenon Magalhães

Continuará pela Avenida Martins de Barros, também à direita e como ciclorrota, até chegar à Praça da República. A rota não passará em frente ao Palácio das Princesas. Seguirá pelo outro lado da praça, em frente ao TJPE e ao Teatro Santa Isabel – por isso as vagas de estacionamento serão desativadas. Nesse trecho será implantada uma ciclovia, que seguirá até a subida da Ponte Princesa Isabel. Na ponte, o ciclista não terá infraestrutura e terá que ser arriscar na pista ou sobre a calçada. A partir da Rua da Aurora, a rota segue como ciclofaixa até a altura da Assembleia Legislativa. Em seguida, vira ciclovia sobre a calçada e continua assim, margeando o Cais da Aurora, até o cruzamento com a Avenida Norte.

Nesse trecho, a travessia será trabalhosa para o ciclista acessar a rota do outro lado, na pista oeste da Avenida Prefeito Arthur de Lima Cavalcanti. Faixas de travessia para ciclistas, entretanto, serão instaladas para garantir a segurança. A rota segue como ciclofaixa por onde hoje existe uma ciclorrota, na pista oeste da via, cruza a Avenida Cruz Cabugá, e continua pela Rua Jayme da Fonte, sempre à esquerda. Ao chegar à Avenida Agamenon Magalhães, mais uma vez o ciclista terá que descer da bicicleta para atravessar a avenida porque, assim como a Ponte Princesa Isabel, o pontilhão sobre o canal da Agamenon não terá infraestrutura. A partir daí, a rota segue como ciclofaixa pela pista local oeste da Avenida Agamenon Magalhães até a Fábrica Tacaruna.

“Sabemos que a rota não atenderá à exigência de parte dos cicloativistas, que queriam uma infraestrutura nas Pontes Buarque de Macedo e Princesa Isabel, o que não foi possível. Eu também queria, mas a CTTU não autorizou para não prejudicar o transporte público. Mas isso não pode virar uma polêmica. Estamos avançando. Não estamos subtraindo, mas somando. São conquistas que estão mudando a consciência do poder público e da sociedade. Temos conseguido vencer barreiras, quebrar culturas. Um exemplo é que vamos retirar 70 vagas de carros em frente ao TJPE para dar espaço à bicicleta”, afirma o secretário estadual de Turismo, Felipe Carreras.

REPERCUSSÃO

A Ameciclo, que participou com sugestões ao projeto do eixo cicloviário, não poupou críticas. “O único mérito do projeto é que ele deixa de ser letra para ser executável. Apenas. Mas ele não cumpre o que foi traçado no PDC. Os governos não tiveram coragem de redimensionar as faixas dos carros e, mais uma vez, pensaram numa rota turística e, não, para quem usa a bicicleta como transporte”, critica Cristiane Crespo, da Ameciclo.

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Alguns pontos irritaram demasiadamente a associação. O fato de a rota não seguir o percurso lógico ao sair da Avenida Rio Branco, pela Avenida Buarque de Macedo, foi o maior deles. “É um absurdo. Vão querer forçar o ciclista a dar uma volta no quarteirão para retornar ao mesmo ponto e, mesmo assim, por uma ciclorrota, que pouca segurança oferece. É claro que quem usa a bicicleta como transporte não vai seguir o percurso. Vai sair direto pela Avenida Rio Branco, até porque aos domingos existe uma ciclofaixa lá”, diz Crespo.

. Primeiro trecho terá 5,1 km e faz parte de um projeto de 30 km que ligará o Recife a Igarassu
Rua da Aurora terá ciclofaixa na pista e ciclovia sobre o cais. Primeiro trecho terá 5,1 km e faz parte de um projeto de 30 km que ligará o Recife a Igarassu

Ainda sobre a segurança, a cicloativista lembra que a prefeitura terá que forçar os veículos a respeitarem as velocidades-limite das vias que serão estipuladas de acordo com o equipamento ciclável que for instalado. “Onde for ciclorrota, a velocidade deve ser de 30 km/h e, no caso de uma ciclofaixa, de 40 km/h. Será que a CTTU vai conseguir que os motoristas respeitem?”, indaga.

Felipe Carreras garantiu que as velocidades determinadas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) serão respeitadas e argumentou que os ciclistas poderão usar a Ponte Buarque de Macedo. “Quem quiser poderá seguir em frente pela Buarque de Macedo no lugar de ir pelo ciclorrota. Mas nós tínhamos que fazer uma rota segura. Por isso, optamos pela Maurício de Nassau”, afirma Carreras.

 

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