11
mar

Sabemos, mas não queremos ver nem resolver. Essa é a situação da mobilidade urbana do Recife, segundo o Iema

11 / mar
Publicado por Roberta Soares às 18:30

Estudo analisou dados disponibilizados pelo poder público e concluiu que os gestores sabem do buraco em que encontra-se a mobilidade urbana, mas não querem resolver os problemas. Os pedestres estão no pacote dos que não têm vez na cidade. Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Estudo analisou dados disponibilizados pelo poder público e concluiu que os gestores sabem do buraco em que encontra-se a mobilidade urbana, mas não querem resolver os problemas. Os pedestres estão no pacote dos que não têm vez na cidade. Fotos: Diego Nigro/JC Imagem

 

Que a mobilidade urbana do Recife está mal, isso todo mundo sabe. Não é novidade, infelizmente. Mas descobrir que os gestores públicos responsáveis por ela têm dados internos que mostram a decadência dos sistemas de mobilidade e, por falta de vontade e/ou capacidade, não mudam a realidade, é péssimo. E que, ainda por cima, planejam a cidade em total desacordo com esses dados, é indignante. Pois bem. Prepare-se porque essas são as principais conclusões do Diagnóstico da Mobilidade Urbana do Recife, um estudo realizado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, que produz e dissemina conhecimento técnico-científico em temas de impacto no ambiente urbano, enfatizando a mobilidade, a qualidade do ar, a energia e a redução de emissões de gases do efeito estufa.

LEIA MAIS
Governo federal prorroga por três anos prazo para elaboração do plano de mobilidade urbana
Brasil precisa investir 230 bilhões em mobilidade urbana, diz BNDES

Mais do que um retrato das condições da mobilidade urbana da capital, o estudo buscou fazer esse diagnóstico a partir dos dados disponibilizados pelo poder público em seus canais ou através de provocações. O objetivo não era propor nada – tipo melhorias ou soluções para a mobilidade urbana. Era apenas ver qual o diagnóstico da cidade pelo olhar dos próprios gestores. E a conclusão, de forma geral, foi de que há conhecimento do buraco em que a mobilidade urbana entrou, seja para o transporte coletivo, a bicicleta ou o caminhar, mas o planejamento está sendo feito às cegas, engolido por decisões arcaicas, de âmbito quase pessoal dos políticos-gestores e que não levam em conta a realidade das ruas, dos dados dos próprios gestores.

 

 

“O diagnóstico se baseia em dados coletados entre 2015 e 2016 e revela, de forma geral, que no Recife a mobilidade urbana não está sendo planejada levando em conta, em primeiro lugar, a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PMNU), de 2012. Em segundo lugar, sem ter um olhar para dentro, ou seja, as decisões tomadas pelos gestores, sejam os responsáveis pelo transporte público ou pelo transporte não-motorizado, não são embasadas nos dados que eles mesmos geram. Isso é muito preocupante. Muitas vezes percebemos a pouca capacidade técnica de muitos dos profissionais envolvidos com o tema, mas também a falta de vontade de entender e resolver”, conclui Pedro Guedes, arquiteto e urbanista especializado em planejamento urbano e um dos consultores que participaram do diagnóstico do Iema.

TRANSPORTE PÚBLICO
O prejuízo ao transporte por ônibus é o mais evidenciado no diagnóstico. E não é à toa. A sobreposição de linhas na área central do Recife e a falta de prioridade viária são gritantes e simplesmente ignorados pelos gestores. Dos 2.400 km de vias que compõem o sistema viário da capital, 650 km são destinados à circulação dos ônibus. Desse total apenas 32,5km têm algum tipo de priorização frente ao tráfego geral. Isso significa que, de todas as ruas percorridas por ônibus no Recife, apenas 5% contam com faixa exclusiva de circulação. “Este dado é importante e demonstra a despreocupação em dar maior velocidade e melhores condições operacionais ao sistema de ônibus, o que resultaria num maior grau de confiabilidade por parte dos usuários”, afirma Pedro Guedes.

 

jc-cid0312_roberta-blog

 

“Com 95% do percurso dos ônibus suscetíveis a engarrafamentos causados pelo excesso de veículos automotores particulares, a tarefa de alcançar o tão sonhado ‘transporte público de qualidade’ torna-se de difícil cumprimento”, diz o estudo. Outra deficiência, apontada no diagnóstico, é a falta de conhecimento da operação em tempo real. “Apesar de a frota de ônibus do STPP ser equipada com equipamentos GPS desde 2011, a informação está disponível ao vivo através do aplicativo móvel CittaMobi e, mesmo assim, não é disponibilizada ao público o dado de velocidade média operacional do transporte público por linha ou mesmo a velocidade média do sistema como um todo”, conclui o Iema.

“Ou seja, não existem informações sobre as velocidades praticadas pelos ônibus atualmente permitindo a comparação do benefício obtido pela implantação de uma faixa exclusiva, por exemplo. Além disso, os dados disponibilizados são insuficientes para o desempenho de uma análise aprofundada a respeito dos custos do transporte por ônibus, o que é preocupante já que o transporte público é bancado pela tarifa paga pelo usuário”, destaca o consultor Pedro Guedes.

 

am030217020

 

BICICLETAS
O diagnóstico produzido pelo Iema concluiu que é fato a não evolução da infraestrutura cicloviária na capital. Na verdade, ela foi mínima. Os dados do próprio município mostram isso e, mesmo assim, nada muda. De uma forma geral, se percebe que o pouco da malha ciclável que foi implantada na cidade não está voltada para o uso da bike como transporte, mas como lazer. Apenas. Liga bairro a bairro, sem conexão com áreas que atraem o trabalhador, como o Centro do Recife, por exemplo.

“Embora 75% das pessoas que usam a bicicleta o façam para ir ao trabalho, a pouca malha executada e planejada pela cidade não prevê esse uso. Veja o Bike PE, por exemplo. As estações foram instaladas, mas não têm conexão por uma malha”, critica Pedro Guedes. O estudo aponta que, após a finalização do Plano Diretor Cicloviário (PDC), somente 15,8 km foram implantados no período do triênio 2013-2015, representando apenas 5,67% da meta de quilômetros estabelecida para a capital até dezembro de 2015.

 

pelocaminhar3

 

MOBILIDADE A PÉ

O pedestre não tem vez no Recife e, mais uma vez, os dados disponibilizados pelo próprio município mostram isso. A capital tem 2.400 km de sistema viário total, mas apenas 5 km são de circulação exclusiva de pedestres, todos no centro histórico e em ruas de altíssima concentração de atividade comercial. Além disso, em quase toda sua totalidade em ruas onde nunca houve trânsito de veículos. Ou seja, não houve a priorização do não motorizado sobre o motorizado. A única iniciativa relativamente recente, citada no diagnóstico, é a da Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife, que está em vias de virar, após atrasos, o primeiro boulevard da capital.

A largura das calçadas também assustam e fica evidente nos dados coletados. Nas regiões que mais concentram atividades econômicas, circulação de transporte público e, por conseguinte, maior circulação de pedestres, as calçadas raramente ultrapassam os 4 metros de largura e em muitos pontos da cidade não passam de 2 metros. A falta de prioridade à mobilidade a pé também é evidenciada no fato de que, dos 640 semáforos existentes no Recife, apenas 1/6 têm ciclos para pedestres. Mesmo assim, a maioria não está instalado em corredores de transporte. E ninguém faz nada para mudar essa realidade!

 

Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

 

TRÂNSITO
Na análise dos dados disponíveis sobre o trânsito e a segurança viária, novamente o Iema fez uma leitura de que os gestores sabem que muito pouco tem sido feito para proporcionar uma mobilidade segura. Os dados mostram que não há uma política de redução de velocidade, apesar de a cidade ter aumentado o número de radares. Hoje são 77 equipamentos, segundo a CTTU. “Pelos dados disponíveis, há apenas 11 pontos monitorados na cidade. É pouco, muito pouco. Fortaleza, por exemplo, tem 600 mil habitantes a menos e dez vezes mais equipamentos de fiscalização eletrônica. É política de gestão”, critica Pedro Guedes.

O consultor destaca que o município não soube informar, por exemplo, a velocidade limite de suas vias. “Nós queríamos saber quantas ruas têm 80 km/h, 60 km/h, 40 km/h e 30 km/h como limite de velocidades para traçar o cenário da política de redução de velocidade e não conseguimos a informação”, relata. O diagnóstico, entretanto, destaca que em 2014 o Recife foi eleita a capital brasileira que mais mata no trânsito, segundo dados do DataSus (vale ressaltar, entretanto, que esse dado do DataSus, utilizado nacionalmente da mesma forma, registra o local de morte da vítima do acidente de trânsito e, não, o local de origem do acidente).

 

Fotos: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem

 

Resposta da PCR. Confira a íntegra do que o município enviou ao Blog De Olho no Trânsito

A Prefeitura do Recife, tem trabalhado para a melhoria da mobilidade das pessoas, seja dos pedestres, dos condutores dos veículos motorizados, dos usuários do transporte público ou das bicicletas.

ROTAS CICLÁVEIS – Através da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), a PCR tem tratado com prioridade o uso equitativo do espaço público entre pedestres, ciclistas e automóveis. É com esse objetivo que foi realizada a prospecção de 12 rotas cicláveis em consonância com o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana (PDC/RMR). Dessas, sete já foram implantadas: Inácio Monteiro (2,4 quilômetros), Antônio Curado (3,2 quilômetros), Marquês de Abrantes (1,9 quilômetros), Arquiteto Luiz Nunes (3,5 quilômetros), Antônio Falcão (1,7 quilômetros), Ciclovia Via Mangue (4 quilômetros) e Ciclofaixa Jardim Beira Rio (0,85 quilômetros), além da Zona 30 (que é uma rota compartilhada entre os modais no Bairro do Recife, mas não entra na contagem da quilometragem total).


publicidade

Atualmente existem cerca de 42 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas na cidade. As novas rotas implantadas pela gestão (num total de 18 quilômetros) compõem a Rede Cicloviária Complementar, que está sendo projetada de forma que exista uma conexão com as já existentes e com a Rede Cicloviária Metropolitana, que está sendo elaborada pelo Governo do Estado. Os projetos priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse público, como parques, praças, mercados públicos e terminais de ônibus, criando pontos de conectividade entre esses equipamentos.

REDUÇÃO DE VELOCIDADE NAS ROTAS CICLÁVEIS – É importante destacar que todas as vias contempladas com ciclofaixas permanentes, implantadas a partir de 2013, têm ou passaram a ter velocidade máxima permitida em 40km/h, como foram os casos das ruas Antônio Falcão e Arquiteto Luiz Nunes, nos bairros de Boa Viagem e Afogados, respectivamente. As vias, que tinham velocidade máxima regulamenta em 50km/h, passaram a ter o limite de 40km/h, após a implantação das ciclofaixas. A Rua Arquiteto Luiz Nunes passou a contar, inclusive, com equipamento de fiscalização eletrônica.

 

Lombadas1_EM

 

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA, ORIENTADORES, SINALIZAÇÃO, AÇÕES EDUCATIVAS E INTERVENÇÕES – A CTTU informa também que, com foco na melhoria da segurança viária do Recife, a atual gestão tem realizado um trabalho contínuo para a redução de acidentes de trânsito, através de diversas ações de fiscalização, educação e engenharia de tráfego. Entre as ações realizadas estão a implantação de 77 equipamentos de fiscalização eletrônica; contratação de 250 orientadores de trânsito; pintura de mais de quatro mil faixas de pedestres e a implantação de 13 mil placas de sinalização vertical; implantação de 90 intervenções de trânsito, que visam, sobretudo, a melhoria da segurança viária e, por fim, foram realizadas diversas ações educativas com foco no respeito aos pedestres e ciclistas.

REDUÇÃO DE ACIDENTES – Todas essas ações citadas acima, juntas, são responsáveis por reduzir cerca de 30% o número de acidentes com vítimas, no comparativo entre os anos de 2012 e 2016.

FAIXA AZUL – Diante do crescimento acelerado da frota de veículos, que em Recife chegou a 69% nos últimos 10 anos, passando de 403 mil para 680 mil, a implantação de faixas exclusivas para a circulação do transporte público se tornou uma medida essencial para a melhoria da mobilidade urbana. O intuito é incentivar o uso do transporte coletivo, através da redução do tempo das viagens dos passageiros. É com essa preocupação que a implantação de faixas exclusivas para a circulação do transporte público é uma prioridade da atual gestão de trânsito. Desde 2013, foram implantados cerca de 33 quilômetros de faixas exclusivas nas avenidas Recife, Mascarenhas de Moraes, Herculano Bandeira/Engenheiro Domingos Ferreira, Conselheiro Aguiar, além das ruas Real da Torre e Cosme Viana. Esse número significa que houve a ampliação de mais de 100% dos quilômetros de faixas exclusivas para o transporte público existentes na cidade, a partir do ano de 2013, que passou de 20,51 km para 54 km, em quatro anos. No total, as faixas azuis beneficiam, diariamente, cerca de 100 linhas de ônibus, que transportam mais de 600 mil passageiros. O ganho de velocidade promovido pelas faixas exclusivas chega em até 118%, como é o caso da Avenida Herculano Bandeira, onde a velocidade dos coletivos passou de 11km/h para 24km/h.

 

Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

 

ZONA AZUL – Por último, A CTTU esclarece que, após 18 anos com a tarifa congelada, houve um reajuste no valor dos talões de Zona Azul vendidos na cidade, passando de R$ 1 para R$ 3, equiparando a tarifa das vagas rotativas do Recife as tarifas cobradas nas principais capitais do país. Portanto, os dados da pesquisa estão desatualizados.

USO DAS CALÇADAS – A Diretoria Executiva de Controle Urbano (Decon), esclarece, sobre a desobstrução das calçadas, que o trabalho é feito para a liberação do passeio público desde o início da gestão, em 2013. Como exemplo, podemos citar o projeto Bairro Legal, que teve início em agosto de 2013 e tem ações realizadas nas zonas Norte, Sul, Oeste e central da cidade. Além de retirar veículos das calçadas, através da CTTU, são retirados pinos de ferro, carcaças abandonadas, cavaletes e quaisquer outros obstáculos que impeçam a mobilidade dos pedestres.

Sobre a qualidade dos passeios públicos da cidade, a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) informa:

CALÇADAS – Desde 2013, a Prefeitura do Recife desenvolve uma ação pioneira para a recuperação de calçadas, beneficiando áreas estratégicas da cidade. Em quase quatro anos, o município recuperou 93 quilômetros de calçadas, investindo quase R$ 18 milhões. As intervenções incluíram a instalação de 210 rampas de acessibilidade e colocação de mais de três quilômetros de piso podotátil, que são faixas em alto-relevo fixadas no chão com o objetivo de auxiliar na locomoção.

 

pelocaminhar2

 

LEGISLAÇÃO – No Recife, a Lei nº 16.890/2003 prevê que o proprietário do imóvel seja o responsável pela construção e manutenção dascalçadas. Cabe à gestão municipal, portanto, a recuperação de calçadas em frente a prédios públicos municipais, canteiros centrais de vias, praças, parques e linhas d’águas (rios, canais etc).

ESCADARIA – A Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) recuperou, desde 2013, 434 escadarias. O trabalho vem beneficiando moradores de bairros como Água Fria, Dois Unidos, Alto de Eucalipto, Alto José Bonifácio, Morro da Conceição, Vasco da Gama, Várzea, Ibura, Jordão, entre outros. Os serviços contemplam a recuperação da estrutura da escadaria, canaleta para drenagem e a implantação de corrimão quando necessário. O investimento total na ação foi de aproximadamente R$ 6,7 milhões.


Veja também