18
mar

Péssimo, caro e perigoso. Essa é a avaliação do ônibus na Região Metropolitana do Recife

18 / mar
Publicado por Roberta Soares às 16:33

 

Fotos: Diego Nigro/JC Imagem
Fotos: Diego Nigro/JC Imagem

 

Péssimo, caro e perigoso. Com vocês, o sistema de transporte público por ônibus da Região Metropolitana do Recife, na avaliação de quem o utiliza. E com frequência. Não o mero passageiro, aquele que apenas passa. Mas o usuário fiel, de todos ou quase todos os dias. Esse é o diagnóstico do serviço a partir de levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisas Uninassau. O transporte por ônibus é considerado péssimo porque o serviço deixa a desejar. Caro, porque o valor da tarifa não condiz com o que é oferecido. E perigoso, porque o medo está andando de ônibus. E não é de agora.

LEIA MAIS
As dores e relatos das vítimas da violência no transporte público
Metrô do Recife é menos ruim do que o sistema por ônibus, diz usuário
Toda a culpa é do governador, diz usuário do transporte público. Inclusive do metrô

Esse temor do usuário do transporte é, inclusive, o que mais chama atenção na pesquisa porque domina os questionamentos e revela um impacto direto na imagem do governo do Estado. E pessoalmente na do governador Paulo Câmara (PSB). Praticamente 100% das pessoas entrevistadas em seis terminais integrados do Grande Recife afirmaram ter medo de andar de ônibus por causa da falta de segurança, da violência. E não é para menos. Os assaltos nos coletivos, inclusive com mortes, têm sido frequentes. Os números mostram isso. Pouco importa se consideramos os dados do Sindicato dos Rodoviários – que indicam 821 assaltos até 13 de março – ou os do governo do Estado – que afirmam terem sido apenas 374 até fevereiro. A violência é sentida por quem utiliza o transporte público, provocando perdas e pânico.

 

jc-cid0319_onibus01

 

E histórias que comprovam o medo do passageiro não faltam. A analista de internet Suzana Almeida é uma de muitos que podem falar com propriedade sobre esse sentimento. Foi roubada no ônibus, em condições bem atípicas às estatísticas oficiais. Eram sete horas da manhã e uma mulher participou do assalto. Detalhes que mostram o quanto a insegurança no transporte cresceu e se espalhou. “Sempre voltei para casa à noite com medo. Mas pela manhã, às 7h, nunca. Jamais esperaria um assalto nesse horário. Ainda mais com uma mulher participando, extremamente violenta. Isso mostra que a situação está fora de controle mesmo e que nós, passageiros, estamos sós”, desabafa. Além do susto no momento do assalto, restam o medo permanente de novas investidas e o trauma diante da situação vivida. “Outro dia, desci do ônibus porque desconfiei de uma mulher e achei que ela tinha uma arma na bolsa. Virou costume descer do coletivo porque desconfio dos passageiros. É péssimo viver assim. Ainda mais sabendo que a mesma linha continua sendo assaltada no mesmo lugar e, supostamente, pelo mesmo casal, sem que nada seja feito”, lamenta.

LEIA MAIS
Precisamos nos unir pelo transporte público brasileiro. É urgente
Cide Municipal: o automóvel financiando a melhoria do transporte público
Onze assaltos a ônibus por dia e 1.916 investidas em 2016. Motoristas ameaçam parar no Carnaval 2017
É muita conversa mole sobre assalto a ônibus
Venha andar na Zumbi do Pacheco-Barro (Loteamento), a linha do medo

Outra revelação preocupante da pesquisa é que quase metade dos passageiros ouvidos (45%) já esteve em ônibus que foram assaltados, mesmo que não tenham sido vítimas diretas. Assaltados de fato, dentro do coletivo, foram 32,7% dos entrevistados. São dados que revelam que a sensação de insegurança é o grande inimigo do setor e do governo do Estado, responsável pela segurança pública. Para confirmar essa lógica, da ampliação do medo na rotina dos usuários, mais um detalhe da pesquisa: a maioria dos entrevistados disse temer ser assaltado no ônibus em qualquer período do dia. Não há mais a associação predominante com a noite. “Eu sou um exemplo dessa realidade. Nunca fui assaltada no coletivo, mas sempre que uso o transporte público tenho medo. Conheço diversas pessoas que o foram recentemente. Por isso, desde o ano passado tenho evitado utilizá-lo, seja pegando carona ou usando o carro mesmo”, declara a universitária Cláudia Patrícia Fonseca, que estuda no Centro do Recife.

 

 

Na opinião dos usuários, é o governo do Estado – seja na imagem da Polícia Militar ou do Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT) – e pessoalmente o governador Paulo Câmara, os responsáveis pela insegurança nos ônibus. O governo e o governador também são culpados não só pelos aumentos, mas pelo alto valor da passagem cobrada nos ônibus da Região Metropolitana. Também é imputado a eles a responsabilidade por melhorar o sistema em todos os aspectos, inclusive a segurança. Tudo isso por um público, em sua maioria, da classe C e que usa predominantemente o transporte para trabalhar.

“A pesquisa mostra os dois grandes ônus para a popularidade do governador Paulo Câmara: o aumento das passagens e a violência nos ônibus. E isso tem um impacto forte na avaliação da gestão estadual. O reajuste da tarifa, dado num momento de extrema crise nacional, acompanhado do aumento da violência no serviço de transporte, foi uma combinação desastrosa. O governo precisa ver esse diagnóstico como um alerta”, adverte o coordenador da pesquisa, o cientista político Adriano Oliveira. De uma forma geral, os terminais integrados foram a única avaliação positiva na pesquisa. Para os usuários, eles são seguros e razoáveis. Apenas.

 

jc-cid0319_onibus02

 

Governo de Pernambuco garante estar reagindo à volência nos ônibus

O governo de Pernambuco está reagindo à violência no transporte público por ônibus. Pelo menos esse é o discurso dos representantes escolhidos para comentar o levantamento do Instituto de Pesquisas Uninassau, no caso a Secretaria de Defesa Social (SDS) e o Grande Recife Consórcio de Transportes (GRCT). A avaliação é de que, mais do que a violência real, a pesquisa revela que os usuários do serviço por ônibus sofrem mesmo é com a sensação de insegurança.

Essa leitura é feita pelo Estado a partir dos dados que mostram que, mesmo considerando a média de 16 assaltos por dia – apresentada pelo Sindicato dos Rodoviários –, o transporte na Região Metropolitana do Recife realiza, diariamente, 26 mil viagens de ônibus. “Ou seja, mesmo que usemos os dados dos rodoviários, bem diferentes dos nossos, a quantidade de assaltos representa menos de 0,01% do total de viagens. Para representar 0,1%, por exemplo, teríamos que ter 26 assaltos diários. Não estamos dizendo que é pouco. Apenas que o que predomina é a sensação de insegurança”, argumenta o major da PM Alexandre Tavares, hoje, o homem na linha de frente no combate aos assaltos a ônibus no Grande Recife por coordenar a Operação Transporte Seguro.

 

jc-cid0319_onibus03

 

Sobre a reação, o major cita números. “Em relação a 2016, de fato temos praticamente o dobro de assaltos nos dois primeiros meses de 2017. Mas analisando apenas este ano, já verificamos uma queda. Registramos 24 assaltos a menos de janeiro para fevereiro. Além disso, a projeção para março é de redução também”, diz o major. Pelos dados da SDS, em janeiro de 2017 aconteceram 199 assaltos e, em fevereiro, 175. “Além disso, ampliamos o número de bloqueios diários da operação de 12 para 22; desde janeiro encaminhamos à delegacia 48 pessoas suspeitas e flagradas roubando nos coletivos, inclusive um grupo formado por menores de idade; apreendemos 13 armas de fogo, 14 armas brancas, além de drogas e objetos roubados. Isso tudo é uma reação à violência”, argumenta Tavares.

No lado da operação de transporte, o discurso é o mesmo. O GRCT argumenta que o resultado da pesquisa é perverso porque retrata mais o sentimento do usuário do que a realidade. E que não ouviu uma quantidade significativa de pessoas, já que entrevistou 624, quando o sistema tem quase dois milhões de passageiros diários. “Não estamos desconstruindo-a, apenas fazendo essas ponderações. Mas concordamos que há um sentimento de medo e estamos trabalhando para mudá-lo. Tivemos avanços do ano passado para cá. Depois da criação da comissão de trabalho em parceria com a SDS e o setor empresarial, padronizamos o registro dos boletins de ocorrência, exigindo mais detalhes, criamos até multas para as empresas de ônibus que não registram os assaltos, e passamos a exigir a instalação de quatro câmeras de alta resolução em todos os ônibus do sistema”, destaca o diretor de operações do GRCT, André Melibeu. Atualmente, o diretor garante que 80,2% da frota está equipada e que, até abril, será 100%.

 

jc-cid0319_onibus04


Veja também