15
jul

BR-101: Descaso que fere e mutila. Que arruína sonhos e projetos de vida

15 / jul
Publicado por Roberta Soares às 19:06

Buracos históricos da BR-101 têm colocado a vida de motoristas em risco, principalmente de motoqueiros. Seja ao norte ou ao sul da rodovia. Fotos: Sérgio Bernardo/JC Imagem

 

A degradação histórica do contorno urbano que a BR-101 faz da Região Metropolitana do Recife não provoca apenas revolta, perda de produtividade e desgaste precoce dos veículos. Vai além disso tudo. Ela mutila. E arruína sonhos e projetos de vida. Foi isso que aconteceu com o bombeiro civil Ítalo Abner Pereira Pinto, 31 anos, que no dia 23 de junho passado perdeu a perna esquerda num acidente provocado por um dos inúmeros buracos da rodovia, a maior e mais importante do País – é fundamental ressaltar. Ítalo era passageiro da moto conduzida pelo irmão e teve a perna praticamente arrancada do corpo quando caíram no chão ao tentar desviar de uma cratera que os surpreendeu na Guabiraba, Zona Norte do Recife, próximo à lombada eletrônica, sentido Jaboatão dos Guararapes-Paulista.

Leia reportagem sobre a DEGRADAÇÃO DO CONTORNO URBANO DA BR-101 NO GRANDE RECIFE

O motorista de um ônibus que trafegava ao lado, também surpreendido pelo mesmo buraco, não conseguiu frear a tempo e esmagou a perna do bombeiro civil. Ítalo, internado no Hospital da Restauração desde então e já submetido a cinco cirurgias, tenta aceitar a perda do membro e retomar a vida. Busca, sem pressa, resgatar a esperança. Mas de uma coisa não tem dúvida: foi a degradação do pavimento dos 30,7 quilômetros que compreendem o contorno urbano da BR-101 que o mutilou e, por muito pouco, não matou a ele e o irmão.

Passamos por vários trechos da BR que estavam quase destruídos, inclusive o da Muribeca (atualmente o mais crítico, em Jaboatão dos Guararapes), sempre com muito medo e cuidado. Mas quando achamos que a pista estava melhor, o buraco gigante nos pegou. Meu irmão tentou desviar, mas caiu e o ônibus que estava próximo não conseguiu parar”,

Ítalo Abner, bombeiro civil que perdeu a perna por causa de um buraco da rodovia

 

Abner era passageiro numa moto e teve a perna quase arrancada do corpo depois de cair por causa de um buraco. Foto: Divulgação

“Não há dúvidas sobre isso. O próprio registro do acidente feito pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) confirmou que a causa foram os buracos da BR-101. Meu irmão trafegava certo, na velocidade adequada, quando foi surpreendido por uma cratera na altura da Guabiraba. Passamos por vários trechos da BR que estavam quase destruídos, inclusive o da Muribeca (atualmente o mais crítico, em Jaboatão dos Guararapes), sempre com muito medo e cuidado. Mas quando achamos que a pista estava melhor, o buraco gigante nos pegou. Meu irmão tentou desviar, mas caiu e o ônibus que estava próximo não conseguiu parar”, relembra Ítalo Abner.

Há trechos que estão um pouco menos ruins e é aí que mora o perigo. O motorista acha que a pista está melhor, depois de sofrer no congestionamento nas piores áreas, e relaxa. Mas, de repente, surgem outros buracos. Foi o que aconteceu comigo e com meu irmão. E à noite a situação é muito pior. No dia do meu acidente era noite, por volta das 18h30, e chovia. Ou seja, um cenário que potencializa o risco de acidentes numa rodovia completamente destruída”,

Ítalo Abner

O bombeiro civil confirma o que diversas reportagens já mostraram: que o contorno urbano da BR-101 na RMR, além de submeter os motoristas a congestionamentos que passam facilmente de uma hora, virou uma grande armadilha para os desavisados. “Isso é verdade. Há trechos que estão um pouco menos ruins e é aí que mora o perigo. O motorista acha que a pista está melhor, depois de sofrer no congestionamento nas piores áreas, e relaxa. Mas, de repente, surgem outros buracos. Foi o que aconteceu comigo e com meu irmão. E à noite a situação é muito pior. No dia do meu acidente era noite, por volta das 18h30, e chovia. Ou seja, um cenário que potencializa o risco de acidentes numa rodovia completamente destruída”, critica Ítalo Abner.

Primeiro, estou trabalhando para aceitar o que me aconteceu e para conseguir me preparar para receber uma prótese. Quero retomar a minha vida como for possível. Mas vou à Justiça para responsabilizar o poder público, não importa se governo federal ou estadual. Caberia a eles evitar que a BR ficasse na situação em que se encontra”,

Ítalo Abner

O bombeiro civil pretende acionar judicialmente o governo federal e o estadual, já que os dois têm responsabilidade sobre o contorno urbano da BR-101 na RMR. Por ser uma estrada federal, a União é quem responde por ela, mas desde 2012 o governo de Pernambuco assumiu a gestão do projeto de restauração da rodovia. “Primeiro, estou trabalhando para aceitar o que me aconteceu e para conseguir me preparar para receber uma prótese. Quero retomar a minha vida como for possível. Mas vou à Justiça para responsabilizar o poder público, não importa se governo federal ou estadual. Caberia a eles evitar que a BR ficasse na situação em que se encontra”, garante Ítalo Abner.

 

Há mais de dez anos, sempre nos invernos, a situação de degradação do contorno da BR-101 se repete

A assessoria de comunicação da PRF em Pernambuco confirmou a versão do bombeiro civil de que o acidente aconteceu porque o condutor da moto foi desviar de um buraco na rodovia e perdeu o controle do veículo. Caiu na pista e o ônibus que vinha próximo atropelou o piloto e o passageiro. Problemas e falhas no pavimento e na geometria das rodovias, entretanto, continuam representando a menor das causas dos acidentes de trânsito.

LEIA MAIS
Contorno do Recife é o campeão de acidentes em toda a extensão da BR-101 em Pernambuco
BR-101: a rodovia da morte em Pernambuco
Bye, bye corredor de BRT na BR-101. Governo do Estado arquiva projeto por causa da crise

Segundo a PRF, entre janeiro e junho de 2017 aconteceram 44 acidentes, com 33 feridos e uma morte, provocados por defeitos em geral, não apenas buracos, nas rodovias federais de Pernambuco. Esse número representa 2,4% do total de acidentes no Estado. Em 2016, o mesmo percentual prevaleceu: foram 87 acidentes que tiveram como causa os problemas de pavimento.

 


Veja também