07
out

Por favor, não sujem o metrô do Recife

07 / out
Publicado por Roberta Soares às 19:00

Na foto, a Estação Recife, porta de entrada do metrô, tomada pelo lixo no mês de agosto. Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

 

Peço licença para iniciar esta edição do De Olho no Trânsito fazendo um apelo: por favor passageiros, não sujem o metrô do Recife. O sistema metroviário metropolitano não merece tanto descaso de parte dos 400 mil passageiros que o utilizam todos os dias. Por mais esforço que a gestão local da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) faça, o usuário é o personagem principal no processo. É ainda mais importante, acreditem, do que os ambulantes que invadem diariamente o sistema.

A mudança na forma de atacar foi melhor porque estamos colocando o pessoal para limpar durante a operação diária. Antes, esperávamos acumular e limpávamos à noite. Vamos continuar com a mesma estratégia, mas precisamos da ajuda dos usuários porque, embora estejamos combatendo os ambulantes, não conseguimos acabar com a venda. Controlamos um pouco a Linha Sul, que tinha sido invadida, mas é um trabalho difícil. Eles entram no sistema e ficam circulando”,

Leonardo Villar Beltrão, do metrô do Recife

A presença nas plataformas das mais movimentadas estações do metrô do Recife diminuiu um pouco, mas no interior dos trens, não há lei nem regras. De desinfetante à mortadela, de tudo continua sendo vendido no sistema. E como a gestão não consegue retirar de vez o comércio ambulante do metrô, só resta à população, ao menos, consumir os produtos sem deixar rastros pelo caminho. A sujeira não só compromete a segurança da operação dos trens – podendo vir a provocar acidentes –, como também deseduca, degradando a imagem do serviço metroviário.

LEIA MAIS
Vagão Rosa fracassa no metrô do Recife
Metrô do Recife é menos ruim do que o sistema por ônibus, diz usuário

Metrôs são sistemas fechados, elétricos, que sempre foram sinônimo de limpeza. E a sujeira é grande, muito grande. Somente no mês de setembro/2017, foram recolhidas 16,4 toneladas de lixo em apenas três estações das Linhas Centro e Sul: Recife, Joana Bezerra e Afogados.

 

 

No último mês, a superintendência do metrô do Recife realizou uma operação especial, chamada Via Limpa, para tentar reverter essa imagem de ‘feira livre’ que está incorporada ao sistema há alguns anos, principalmente depois que os Policiais Ferroviários Federais (PFFs) foram proibidos de andar armados numa ação iniciada pela Polícia Federal em Pernambuco. Para potencializar a capacidade de limpeza, o metrô passou a fazer a coleta do lixo também durante a operação diária e, não apenas, à noite, após o sistema estar fechado. O resultado foi o recolhimento de 916 sacos de 200 litros de lixo das vias das três estações – duas delas as mais movimentadas do sistema.

Confira o Especial Multimídia UM METRÔ AINDA RENEGADO

O lixo, é importante destacar, é basicamente de garrafas pet e sacos de pipoca, os principais produtos vendidos pelos ambulantes. A operação, na avaliação dos gestores metroviários, tem dado certo. “A mudança na forma de atacar foi melhor porque estamos colocando o pessoal para limpar durante a operação diária. Antes, esperávamos acumular e limpávamos à noite. Vamos continuar com a mesma estratégia, mas precisamos da ajuda dos usuários porque, embora estejamos combatendo os ambulantes, não conseguimos acabar com a venda. Controlamos um pouco a Linha Sul, que tinha sido invadida, mas é um trabalho difícil. Eles entram no sistema e ficam circulando”, desabafa o superintendente do metrô do Recife, Leonardo Villar Beltrão.

Para se ter noção da dimensão da falta de educação de parte dos usuários, nos primeiros dias da operação de limpeza, somente na Estação Recife, a que mais recebe atenção por ser a porta de entrada do sistema, foram retirados 50 sacos de 200 litros de lixo. “No fim do mês, entretanto, a limpeza constante surtiu efeito e recolhemos apenas oito sacos de 200 litros”, explica Sérgio Correia, supervisor geral da Linha Centro, a maior em extensão e demanda do metrô. Além da Operação Via Limpa, as estações têm um mutirão de limpeza nas vias, sempre à noite, de 15 em 15 dias.

 

ALTO CUSTO
Mais uma razão para os usuários não descartarem nas estações e vias os restos do que consomem no metrô do Recife é o valor pago para manter a limpeza do sistema. Quase R$ 1 milhão por mês. Segundo a CBTU, a limpeza nas estações é executada por duas empresas terceirizadas, totalizando R$ 628 mil mensais. São 160 funcionários no trabalho. Já a limpeza dos trens é realizada por uma terceira empresa, com 87 pessoas, num contrato de R$ 222 mil mensais. E a higienização da via entre as estações é feita por 27 terceirizados, ao custo de R$ 107 mil mensais. “Ou seja, temos quase 300 pessoas cuidando apenas da limpeza. É um efetivo razoável, mas que se torna pequeno se a população não ajudar”, apela Leonardo Villar Beltrão.

INVASÕES
A repressão direta ao comércio informal é, sem dúvida, a principal estratégia da gestão local da CBTU. Mesmo após a saída, em julho, do ex-coronel da PM Luiz Meira, homem que entrou para resolver os problemas de segurança do sistema, a vigilância terceirizada continua combatendo os ambulantes, principalmente nas estações do metrô. Mas a gestão tem identificado que a falta de fiscalização dos terminais integrados com os ônibus, sob responsabilidade do governo do Estado, via Grande Recife Consórcio de Transportes (GRCT), está se transformando num grande problema.

Ambulantes continuam transformando o metrô numa verdadeira ‘feira livre’. Foto: Guga Matos/JC Imagem

“Nós já temos o aspecto da tarifa social cobrada pelo metrô, que facilita o acesso dos ambulantes. Muitos pagam R$ 1,60 e passam o dia circulando no sistema e vendendo seus produtos. Mas muitos também estão entrando de graça, pelos terminais. Já fechamos o TI Cavaleiro por isso. Agora, quem desce do ônibus faz a integração temporal para entrar no metrô sem pagar nova passagem. E vamos fechar outros terminais. Temos conversando com o Estado para que a integração temporal seja ampliada”, afirma Leonardo Villar Beltrão. Lembrando que a integração temporal é uma tecnologia que permite ao passageiro fazer uma integração de transporte por um determinado horário, sem necessidade de estrutura física.

LEIA MAIS
Péssimo, caro e perigoso. Essa é a avaliação do ônibus na Região Metropolitana do Recife
As dores e relatos das vítimas da violência no transporte público
Toda a culpa é do governador, diz usuário do transporte público. Inclusive do metrô

Nos planos de fechamento da CBTU estão os TIs de Largo da Paz e Prazeres, na Linha Sul, e Cosme Damião e Santa Luzia, na Linha Centro. “São terminais pequenos em relação à demanda de passageiros. Por isso planejamos começar por eles. Depois, partir para os maiores. O TI Recife, por exemplo, tem sido um grande problema para nós. A evasão de receita tem sido muito grande lá. Já avisamos ao Estado que se algo não for feito iremos fechar o acesso dos nossos bloqueios. Também sofremos com Joana Bezerra. Melhorou após a construção do novo TI, mas ainda há muita invasão pelos portões”, avisa o superintendente do metrô.

GRCT
Provocado, o GRCT informou, por nota, que está avaliando em conjunto com o metrô Recife a viabilidade técnica de ampliar a integração temporal para outros terminais integrados. “Para tanto, é necessário que a Urbana-PE solucione problemas técnicos identificados à época da implantação da integração temporal nas linhas do TI Cavaleiro”, diz a nota. Quanto à evasão de receita, “o Grande Recife esclarece que embora a mudança na operação desse terminal tenha contribuído para o aumento do passageiro catracado, esse não foi o motivo para a implantação da integração temporal no TI Cavaleiro”, diz o órgão, sem dar mais detalhes.


Veja também