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Testamos, mas não teremos ônibus a gás na Região Metropolitana do Recife por enquanto

11 / nov
Publicado por Roberta Soares às 18:00

Veículo foi testado em 2016 e teve resultados excelentes, mas não há qualquer perspectiva de que seja incorporado ao sistema de transporte da RMR. Fotos: Bobby Fabisak/JC Imagem

 

Muita gente já deve ter esquecido, mas há pouco mais de um ano o Recife testou um ônibus a gás, o primeiro totalmente nacional, fabricado pela Scania, no sistema de transporte da Região Metropolitana. O teste aconteceu na linha Circular (Prefeitura/Cabugá), que faz integração na Estação Recife do metrô e é operada pela Empresa Metropolitana. Tecnicamente, o teste de 30 dias foi um sucesso.

 

Como será a questão de manutenção? Qual o custo para o abastecimento? Quem hoje fabrica em larga escala para que possamos fazer uma cotação? São algumas perguntas que ainda estão sem respostas. Por isso é importante que o modelo do ônibus a gás chegue como um projeto macro, nacional”,

André Melibeu, do GRCT

 

O ônibus a gás teve um desempenho excepcional e um custo operacional 28% menor do que um veículo semelhante a diesel. Todos ficaram satisfeitos: governo do Estado, que apresentou o teste com a expectativa de que o sistema pudesse, enfim, aderir à tecnologia sustentável; Scania, empenhada em comercializar o modelo; e Copergás, estimulada com a possibilidade de ser a fornecedora do gás para um projeto inovador.

Mas, apesar dos bons resultados, na prática o caminho é longo para viabilizar a ideia. São muitas incertezas sob o aspecto operacional, consideradas não só pelo Estado, mas pelos empresários, como os incentivos e a segurança operacional para aderir à tecnologia. Ou seja, em outras palavras: o ônibus a gás é maravilhoso, mas as chances de ele virar realidade em Pernambuco são poucas. Aliás, muito poucas.

O que falta é o amadurecimento do setor para incorporar a tecnologia do transporte sustentável, da preocupação com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ofertando mais conforto aos clientes. A tecnologia desenvolvida pela Scania evoluiu muito. Esse ônibus tem autonomia de 450 quilômetros e um abastecimento que, hoje, é feito entre quatro e seis minutos”,

Eduardo Monteiro, da Scania

 

E as razões são muitas. Segundo o Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT), os ganhos são inquestionáveis, mas é preciso garantir que seja um modelo competitivo, que compense o investimento. Entre os questionamentos, estão dúvidas sobre incentivos fiscais e linhas de financiamento para compra dos veículos, por exemplo.

Confira o vídeo do teste realizado em 2016:

“Nós não temos como obrigar o setor empresarial a adquirir ônibus a gás e é preciso que exista uma segurança operacional para que o modelo seja adotado. Como será a questão de manutenção? Qual o custo para o abastecimento? Quem hoje fabrica em larga escala para que possamos fazer uma cotação? São algumas perguntas que ainda estão sem respostas. Por isso é importante que o modelo do ônibus a gás chegue como um projeto macro, nacional”, pondera André Melibeu, diretor de Operações do GRCT.

Outro obstáculo ao projeto é o valor do veículo, que custa 20% mais caro do que o a diesel – entre R$ 700 mil e R$ 800 mil. Os fabricantes, entretanto, garantem que o investimento é compensado entre dois e três anos de uso. “O custo é maior por causa do cilindro de gás, que precisa ser de aço. Alguns, de fibra de carbono, enquanto que o ônibus a diesel tem cilindro de plástico. Mas o retorno do investimento é certo com o projeto do ônibus a gás. O que falta é o amadurecimento do setor para incorporar a tecnologia do transporte sustentável, da preocupação com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ofertando mais conforto aos clientes. A tecnologia desenvolvida pela Scania evoluiu muito. Esse ônibus tem autonomia de 450 quilômetros e um abastecimento que, hoje, é feito entre quatro e seis minutos”, pondera Eduardo Monteiro, da Scania, fazendo referência ao trauma criado no setor devido à péssima experiência vivida no passado com o ônibus a gás.

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A rede de abastecimento também é outro ponto questionado, mas durante os testes de 2016 o então presidente da Copergás, Décio Padilha, explicou que a realidade da distribuição de gás no Estado estava bem diferente do passado. “Hoje, o setor de gás cresceu 11%. Nós temos 700 quilômetros de rede de distribuição, com 70 postos para garantir o abastecimento. E, nesse projeto, nossa intenção é instalar uma estação de abastecimento na garagem da empresa que vai operar o veículo”, disse à época.

Procurada, a Copergás – já com outro presidente – se posicionou apenas por nota, afirmando que “Em 2016, a Copergás incentivou os testes de ônibus movidos a gás natural veicular e está apta para ofertar o combustível às garagens das operadoras demandantes. O fornecimento de GNV se dará a partir de decisões entre o Consórcio Grande Recife e empresas privadas. O GNV é definitivamente o combustível mais limpo, seguro e econômico. Atualmente, Pernambuco possui uma frota de 47 mil veículos e 70 postos que comercializam o gás veicular”.

O ônibus a gás, entretanto, funciona. Os testes confirmaram que é um veículo extremamente confortável para os passageiros e operadores, sem ruído e com um alto nível de sustentabilidade ambiental. Rodou quase três mil quilômetros entre outubro e novembro de 2016. A capital pernambucana foi a primeira cidade do Nordeste a receber o ônibus a gás natural da Scania. O veículo, que também é movido a biometano, já foi testado em cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, com bons resultados. Em comparação com um veículo similar a diesel, emitiu 85% menos gases poluentes, quando abastecido com biometano, e 70%, no teste com GNV.

Nos primeiros testes, no entanto, a operação foi realizada sem passageiros, com o veículo apenas fazendo o itinerário da linha operada pelo ônibus similar a diesel. No Recife é que aconteceu o segundo teste transportando usuários – a primeira cidade foi Sorocaba (SP), onde o desempenho também foi positivo, com um custo operacional 28% menor.

 


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