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Rodoviários em guerra e população refém

12 / jul
Publicado por Roberta Soares às 7:30

Rodoviários estão no mês do dissídio coletivo e, entre brigas, prometem paralisações. Fotos: Guga Matos/JC Imagem

A população pode se preparar para reviver nesta quinta-feira (12/7) e nas próximas semanas ameaças e paralisações dos ônibus que circulam na Região Metropolitana do Recife. Além de estar no mês do dissídio coletivo, período para negociar os reajustes salariais e que, historicamente, resulta em greves no transporte, os trabalhadores rodoviários chegam a mais uma campanha salarial numa guerra interna. A atual direção do Sindicato dos Rodoviários, eleita há quatro anos para substituir um comando que ficou no poder por mais de três décadas, enfrenta uma resistente oposição, que este ano está ainda mais forte. Prova disso é a paralisação do serviço de ônibus que aconteceu durante a manhã desta quinta  nas ruas e terminais integrados do Grande Recife, anunciada por parte da categoria, mas rejeitada pelo sindicato.

É um grande erro de estratégia decidir por uma paralisação da categoria nesse momento, quando estamos no meio da rodada de negociações. Não podemos assumir um movimento assim, no atropelo”,

Benilson Custódio, presidente do Sindicato dos Rodoviários

O protesto, realizado apenas no horário da manhã, foi convocado pela unificação das oposições, representada pela união de três grupos distintos de rodoviários: a Oposição Rodoviária O Guará/CSP Conlutas, a Família Rodoviária/UGT e a Oposição Rodoviária/CUT. Os três fazem oposição pública ao Sindicato dos Rodoviários, presidido por Benilson Custódio, que já foi o braço direito de um dos principais líderes da atual oposição, o ex-rodoviário Aldo Lima. Os grupos não se entendem desde o primeiro ano de gestão, em 2014, e agora a animosidade ganha força com a união das oposições. E, no meio dessa confusão, estão os 1,8 milhão de passageiros que diariamente utilizam os ônibus no Grande Recife.

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Não faltam acusações mútuas entre os envolvidos na polêmica. “É um grande erro de estratégia decidir por uma paralisação da categoria nesse momento, quando estamos no meio da rodada de negociações. Tivemos duas reuniões com a classe patronal, mediada pelo Ministério Público do Trabalho, e assumimos o compromisso de não fazer nenhum movimento até que todas as possibilidades fossem esgotadas. A terceira rodada está prevista exatamente para esta quinta-feira, às 15h. Somente depois é que iremos convocar uma assembleia para que a categoria decida o que fazer. Não podemos assumir um movimento assim, no atropelo. Não há razão para isso”, defende Benilson Custódio. “Essa oposição é oportunista e está querendo usar a categoria para se projetar politicamente. Aldo Lima, por exemplo, é novamente candidato a deputado estadual e não está pensando nos rodoviários. Ao contrário. Tem sede pelo poder. Quer se eleger às custas dos motoristas e cobradores e já almeja a eleição da nova diretoria do sindicato, em 2019. Além disso, nem são motoristas. Um é ex-rodoviário e os outros estão afastados pelo INSS”, critica Genildo Pereira, assistente de comunicação do sindicato.

Benilson Custódio já virou Patrício Magalhães (numa referência ao ex-presidente do sindicato, que comandou a entidade por mais de 30 anos). Virou um aliado dos empresários de ônibus e não luta mais pelas conquistas da categoria”,

Aldo Lima, da Oposição Rodoviária

Os diretores sindicais lembram que os equívocos da oposição, estimulando a categoria a partir para a greve antes do momento correto, prejudicaram as duas últimas campanhas salariais. “Em 2016 tivemos a proposta de reajuste de 27% no tíquete e de 9% nos salários, mas esses grupos queriam 300% no tíquete e convenceram a categoria a ir para o dissídio. Fomos e perdemos tudo no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Tivemos um reajuste linear de 9,5% para tudo. No ano passado aconteceu algo parecido. Tivemos a proposta de 11% no tíquete e 4% no salário, mas novamente a categoria foi estimulada à greve e, mais uma vez perdemos. Aguardamos o julgamento até hoje e, enquanto ele não acontece, recebemos um reajuste de 2,5% no tíquete e 2,56% no salário. Essas derrotas precisam ser consideradas”, afirma Genildo Pereira.

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

A Oposição Rodoviária, entretanto, acusa a atual direção do sindicato de estar ‘comprada’ pelo setor empresarial. “Benilson Custódio já virou Patrício Magalhães (numa referência ao ex-presidente do sindicato, que comandou a entidade por mais de 30 anos). Virou um aliado dos empresários de ônibus e não luta mais pelas conquistas da categoria. O primeiro sinal é a transferência das rodadas de negociação para a sede da Secretaria das Cidades, que fica na Iputinga e dificulta o acesso dos rodoviários. Depois, embora tenha sido defendido em assembleia a proposta de 9% de reajuste salarial e de 16% no tíquete, levou para a mesa de negociação valores diferentes: 4,5% e 11%, respectivamente”, diz Aldo Lima, que comanda a Oposição Rodoviária O Guará/CSP Conlutas. Segundo o militante, a categoria não legitima mais a atual diretoria sindical. “Estamos órfãos novamente. Todo ano é a mesma coisa. A classe patronal faz o que quer e o sindicato aceita porque tem interesses pessoais”, ataca Aldo Lima.

 

 

 

O Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT), gestor do sistema de transporte, disse desconhecer a possibilidade de uma paralisação dos rodoviários nesta quinta-feira. Já o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (Urbana-PE) não deu retorno à reportagem.


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