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dez

Botecando com Helena no Leblon

15 / dez
Publicado por Bruno Albertim às 16:45

 

 

Esqueça as heroínas das novelas disputando o amor com as filhas. Uma Helena real pode mostrar o que interessa no Leblon
Esqueça as heroínas das novelas disputando o amor com as filhas. Uma Helena real pode mostrar o que interessa no Leblon

Nããão! Não reclama, que é piorrrr!, ela disse, exibindo todos os “erres” de sua carioquice bem destilada e derrubando, no golpe de advertência, metade do chope segurado pelo meu punho em reclamação. Meu filho, você não sabe!? Garçom antigo no Rio de Janeiro é pior que assessor do prefeito. Pensa que é dono da cidade. Se reclamar, ele cospe no teu chope”, me ensinou, enquanto ajeitava o coque que tem servido como decoração e testemunha de suas quase seis décadas de vida entre botequins, boas mesas – e outras nem tanto – no Leblon. “Sei de garçom que bota até pentelho na farofa!”

Ela se chama Helena. Mesmo que não tenham colocado os pés nesses quarteirões, vocês devem conhecer alguém com as prerrogativas. Nome: Helena. Endereço: Leblon, aquele lugar onde a Zona Sul do Rio de Janeiro não poderia ser mais Zona-Sul-do-Rio-de-Janeiro. E param por aí as semelhanças com as heroínas esquálidas da novela das oito, aquelas helenas de pele tão placidamente claras, blindadas em óculos gigantescos, mulheres flutuantes que parecem nunca ter visto o sol sobre o mar ali na frente.

As mulheres na navalha do dilema disputando o amor de um homem qualquer com a própria filha, numa novela de Manoel Carlos, caberiam todas, juntas e com folga, numa única curva da minha Helena.

Essa Helena aqui é vida real: “Meu filho vive me dizendo: ‘Ô mãe, você é meu exemplo!’ Onde já se viu eu ser exemplo de ninguém! Mandei ele ir morar com o pai uns tempos.  Tava muito apegado a mim. Ia acabar ficando esquisito”.

De uma época em que mulher de verdade comia macarrão para alcançar os declives da Sophia Loren, Helena já teve as curvas cobiçadas por alguns dos atores, hoje conquistadores aposentados, responsáveis por inventar o conceito de galã na velha televisão brasileira.

Com eles, comeu frango à passarinha com o mesmo prazer e galhardia com que traçou filés monumentais ao molho madeira numa época em que camarão era servido em cascata e o mundo gozava, em vez de sofrer, com calorias.

“Vem, que eu vou te mostrar o que ainda presta nessa josta desse Leblon”, ela disse, me tirando da varanda do restaurante onde o velhote de camisa branca e gravata borboleta, um guerreiro de salão à moda antiga, fazia cara de Corcovado a cada vez em que eu pedia o molho de pimenta pra jogar sobre o galetinho tenro ao lado do meu chope mais quente que o asfalto do Vidigal.

Já falei pro maître que você é do Recife e tá decepcionado aqui”, ela diz, me guiando pela calçada. “Vem meu filho”.

Fazia tempo que não gastava meu dinheirinho aqui pelas mesas do Leblon. Mas, seguindo o mantra autoimposto de viver sempre o bairro onde estou hospedado a cada ida à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, fui conhecer o Leblon da verdadeira Helena, minha musa de coque e chope gelado, uma honoris causa em boemia carioca.

De volta, trouxe umas boas dicas de navegação pra quando forem bater uma perninha no bairro em Chico Buarque de Hollanda sua as canelas.

Helena sabe das coisas:

JOBI: Com o sol a pino e, o que é raro, mesas disponíveis, paramos para um chope no Jobi, o botequim mais grifado de todo o Leblon. Aberto em 1956, o bar é uma instituição. De noite e pela madruga, a galera entope a calçada de tulipa ou copo plástico na mão para exercitar o velho ver-e-ser-visto. Tem omelete, risoles de camarão e bacalhau à Gomes de Sá. É o bar onde a conversa engata rápido e aquele ator da novela das oito troca ideias com a vizinhança pilotando um chinelão de dedo e moletom pra ficar mais à vontade de pilequinho. Mas tão logo recebemos o chope, morno como a vida, chegam umas empadinhas para abrir os trabalhos. “Ô meu querido, traz uma lupa pra eu ver esta empada”, Helena pede ao garçom. De camarão (sim, havia algum ali dentro, supomos), a empada, além de minúscula, tava de dar pena. Não era mal assada, mas crua. Trigo cru. Convimos que não valia a pena investir nove realezas em cada chope e nos mandamos prum outro porto ali perto. Mas é possível que voltemos: desde a época em que Cazuza flanava pelo Baixo Leblon, o Jobi é um dos poucos de toda a cidade que ainda fecham às cinco da matina.  Na Av. Ataulfo de Paiva, 1.166, Fone: (21) 2274-0547. Dom a qui, das 9h às 4h; sex e sáb, até 5h.

Jobi: clássico que é menos proveito e mais pura fama
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BRACARENSE: Confirmando a máxima de que a vida aqui acontece a pé, algumas quadras depois estávamos no Bracarense. Na ativa há quase três décadas, o bar deixou de reluzir soberano como a joia da baixa gastronomia da Zona Sul depois que a dupla Chico e Alaíde – ele, garçom, ela, cozinheira – pediu as contas para abrir o próprio negócio. Sabadão, as mesinhas lotadas na calçada. Chope geladinho, bem tirado, e, sim, se já não há mais aquela monumental empadinha aberta de siri, o bolinho de aipim (entendam macaxeira, por favor) com camarão e catupiry é uma dádiva com o molho de pimenta caseiro. Ficar no balcão tem suas vantagens: é lindo o balé frenético dos pães franceses na chapa virando sanduíches robustos de carne assada ou pernil suculento, com ou sem queijo Minas. Durante a semana, os pratos executivos são generosos como almoço de mãe. O arroz de camarão custa pouco mais de 40 pratas e faz a alegria de dois ou três. “O Braca tem sim seu magnetismo”, ela diz. Na Rua José Linhares, 85, fone: (21) 12294-3549 e (21) 2511-1496. De segunda a sexta, das 8h à meia-noite; sábado, das 9h30m à meia-noite; domingo, das 10h às 22h.

Bracarense: teve dias melhores, mas mantém magnetismo
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CHICO E ALAÍDE: Há algum tempo, a mineira Alaíde Carneiro não cria uma novidade de impacto no seu verdadeiro universo de bolinhos para acompanhar o chope bem tirado pelo seu sócio e garçom Francisco das Chagas Gomes Filho, o Chico. Aqui, encontramos pratos para compartilhar. Mas muita gente faz o que fizemos: gasta o tempo entre chopes e os mais de 20 acepipes do cardápio. Copiado até as últimas fronteiras do Rio de Janeiro, o bolinho de aipim com camarão e catupiry foi criado por ela – e é um afago. “Gosto muito dos que ela batizou de “totevendo”, diz Helena, mostrando o recheio por fora, e não por dentro. “Manda um cabeludinho”, pede ela ao garçom, e logo recebe o bolinho de abóbora com carne seca por fora, os fiapos da charque arrepiados como um cabelinho. Cada bolinho custa R$ 6,30. É barato, mas a gente corre o risco de comer tantos que ao final, teremos pago o equivalente a um menu completo num restaurante mediano. O Chico e Alaíde é bom, diverte e encanta, tem também boas porções, como a costelinha de porco, mas a gente come tanta fritura depois de uma tarde que pensa um pouco antes de voltar. Fica no final na Dias Ferreira (número 679), a rua mais badalada do Leblon. Fone: (21) 2512-0028. De segunda a quinta, das 11h30m à meia-noite; sexta e sábado, das 11h30m à 1h; domingo, de 11h30m às 22h.

Chico e Alaíde: bolinhos e mais bolinhos que valem por uma degustação
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ACONCHEGO CARIOCA: No lugar, funcionou o já nem tão saudoso Caneco 70, na nem tão tranquila esquina da Avenida General San Martín com a Rainha Guilhermina. Ali, Katia Barbosa montou uma sucursal Zona Sul do seu botequim na Praça da Bandeira onde a baixa gastronomia ganhou potência ímpar. No original, starlets e chefs celebridades do mundo, como Daniel Boloud e Nigella Lawson, já foram provar o famoso bolinho de feijoada, invenção da queridíssima Katita, uma acepipe copiado por 12 de cada 10 botequins do Rio (e do Recife também). A casa é grande, menos charmosa que o original, num sobradinho antigo, tem redes no teto como uma forma de reverenciar um certo DNA nordestino da comida. É meio claustrô, com as paredes de vidro pra segurar o ar condicionado impedindo a comunicação direta com a rua. “Mas o que importa é que tem esses bolinhos divinos aqui”, diz Helena. As almofadinhas de camarão são divinas: a massa de tapioca fofinha recheando o crustáceo. Os bolinhos de rabada, eliminada de toda gordura, com uma capinha bem fina de farinha de rosca, quase sem trigo, sem fenomenais. O chope é apenas regular, mas a carta de cervejas gringas desafia um capítulo da Bíblia. Para comer de verdade, o arroz de camarão, soltinho, caseiro, crustáceo graúdo e no ponto, dá pra ser dividido por dois ou três – sobretudo depois da inevitável botequinagem anterior. Custa pouco mais de oitenta realezas. “Gosto mais do da Praça da Bandeira. Mas é ruim deu sair do Leblon, hein!”, ela diz. Vai lá: Rainha Guilhermina, 48, Leblon, Rio de Janeiro. Fone: 2294-2913.

Aconchego Carioca: sucursal de Kátia Barbosa na Zona Sul
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Acabamos a noite, claro, num dos sofás com mesinha baixa da Pizzaria Guanabara. Na calçada, o vai e vem nem chega perto, lembra Helena, da época em que o Baixo Leblon gravitava em torno dos humores etílicos de Cazuza, Bebel Gilberto e sua turma. Nas mesas do lado, a pizza massuda, com aquela espessura bem anos 80, calabresão em rodelas, e cara, anima pouco.

Pizzaria Guanabara: testemunha dos tempos áureos do Baixo Leblon
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Se a fome bater, o melhor é andar um tiquinho até o T.T. Burguer, a filial da hamburgueria artesanal de Thomas Troisgros, filho quase tão potente como o pai boa praça Claude, onde o disco de carne tem 180 gramas de uma suculenta mistura de acém, fraldinha e contra-filé, uma receita secreta dos Troisgros, com tomates frescos, alface, cebola agridoce, picles de chuchu (!), queijo meia-cura, no meio de um ótimo pão de batata-doce. Custa 32 pratas, e vale por um prato. “Quando um pretê queria me impressionar, me levava ao restaurante do pai dele no Jardim Botânico”, ela diz, os lábios ligeiramente lambuzados com o intrigante ketchup de goiaba feito ali.
Da próxima vez, vamos gravitar pelos restaurantes elegantinhos da rua Dias Ferreira, onde o Celeiro, natureba grifado onde starlets e atrizes pagam, no peso, quase o mesmo valor de um magret de pato. “Mas esse“, diz minha Helena,sobre a rua da rúcula mais cara do Brasil, “já é outro Leblon”. 

Helena sabe dos riscados. Enquanto Vinícius, seu amigo, incluía a bossa na linha evolutiva da MPB, ela equilibrava as bolachas de chope pela evolução, ali, da CPB, a boa e velha Comidinha Popular Brasileira.

 

Celeiro: as moças da TV comem aqui sua rúcula de grife
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