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Crise na segurança mostra que perfil da PM mudou e o governo não viu

26 / fev
Publicado por Fernando Castilho às 12:30

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Bem, o 40º desfile do Galo da Madrugada acabou, a Polícia colocou 4.650 militares nas ruas e o cidadão… ah, o cidadão sempre nos ensina pelo exemplo. Foi para as ruas e brincou como se a barafunda da questão salarial da PMPE não existisse. Ponto para ele e para soldados que estavam ali com boné cor de laranja para dar aquela sensação de segurança que no dia-a-dia a gente tanto cobra do governador Paulo Câmara.

Mas, passado o belíssimo desfile sob as asas daquela alegoria “conceitual” instalada na Ponte da Boa Vista e que, nas redes sociais, viralizou, causou e rendeu centenas de memes, cabe um pouco de conversa sobre o que diabos está acontecendo com a Policia Militar. Porque entrou num embate salarial com o governo justamente quando a proposta é criar as bases de uma reivindicação histórica da corporação: ganhar igual à Polícia Civil?

Para começo de conversa, é bom colocar uma peça fundamental nesse jogo. Houve uma mudança radical no perfil da corporação provocada por quase duas décadas de ausência de contratação de pessoal, essencialmente, por força das crises nas contas do estado. Essa ausência de concursos abriu um espetacular hiato entre o “poliça” que está perto de se aposentar por tempo de serviço e o soldado “hispster” marombado que está passando no concurso da PM depois que Eduardo Campos entendeu de recompor a tropa.

O primeiro com, no máximo, um certificado de ensino médio e o segundo com, no mínimo, um diploma universitário, dezenas de participações em concursos, algumas especializações, pós-graduações e, não raro, um Mestrado.

O primeiro está olhando a massaranduba do tempo, esperando sair da ativa e, se possível, entrar na Guarda Patrimonial assegurando alguns caraminguados ao soldo e cuidar de um negócio próprio junto com um filho ou a mulher. O segundo, esperando o próximo concurso para Bombeiros e, uma vez na corporação, outro concurso para virar delegado da Policia Civil e, de lá, para Ministério Público. Dito de outra forma: entrar na PM hoje é ganhar uma bolsa salário para se preparar para um concurso com salário no setor público dobrado.

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Isso explica os dois comportamentos. O primeiro pensa na família e conta o tempo para se aposentar. O segundo usa a folga proporcionada pela jornada de 12 horas de serviço por 36 horas de folga para estudar para concurso. Um apoia as associações, o segundo faz passeata e “peita” o governo influenciando a tropa.

Mas, o problema não está afeito apenas à soldadesca. Está mais sério no grupo de oficiais. Esse vácuo de tempo nas contrações é tão sério que a maioria dos capitães estão na rua porque, simplesmente, não tem tenente para formar os grupamentos. No Corpo de Bombeiro não existe tenente combatente (especialização para atuação básica da tropa), o que faz com que todos os capitães estejam na rua fazendo o serviço de tenente. O quadro de 130 tenentes com formação de combate está zerado. Agora, imagine isso na Policia Militar?

Esse quadro de pessoal é o que baliza a conversa de salário. Falta gente, mas falta mais gente no “miolo” da tropa. Quando a negociação começou, as conversas nos quartéis eram de que vinha um reajuste bom. E foram os oficiais quem seguraram a tropa. Até porque, pelo nível intelectual dos novatos os tenentes, capitães e coronéis discutiram isso nas conversas informais no batalhão. Mesmo todos sem conhecer as tabelas de reajuste.

O problema é que quando saiu o reajuste, a base viu que a ideia de transformar gratificação em soldo virou um problema fiscal. Com a incorporação da gratificação, o soldado mudará de alíquota e, na prática, vai perder salário na conta bancária. Certo, é muito bom para a aposentadoria que, para muitos, está próxima. Mas, a devolução do IR só vem daqui a um ano.

Foi essa conta que deixou o tenente e o capitão sem argumento para convencer os graduados. E foi isso que deu força ao discurso radical dos soldados novatos mais escolarizados. Sem o objetivo do graduado se aposentar, o soldado “hispster” radicalizou nos discursos nas redes sociais especialmente nos grupos de WhatsApp.

A outra questão está relacionada à reivindicação dos oficiais em liderar as negociações. É preciso voltar ao governo Eduardo Campos. Com o objetivo de recompor um mínimo da tropa, o então governador que implantou o Pacto pela Vida abriu concurso, mas “empoderou” as associações de graduados permitindo que elas participassem das conversas sobre salário.


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O cenário de caixa gordo permitiu ao então governador trabalhar politicamente. Até porque, ele queria ter oito anos sem greve. Não que as associações comandassem, de fato, a conversa. Na verdade, o pessoal técnico das secretarias da Fazenda e do Planejamento tinha margem. E elas ao esticarem a corda, tiveram a impressão de que Eduardo Campos atendia a base e que ainda os ouvia diretamente.

Os oficias, é claro, não gostaram nada disso. Mas, pergunta quem se atrevia a bater de frente com Eduardo Campos? Imagina o comandante da PM ou seu estado-maior dizendo ao governador que estava fazendo concurso que quem deveria comandar a negociação de salário era o coronel? Isso foi o que gerou o rolo que está arrebentando agora.

O tempo passou, veio a eleição e sem o caixa de Eduardo Campos, Paulo Câmara avaliou que era hora de rever o procedimento. E convenceu-se que ninguém melhor que os líderes para ter de volta essa missão. O procedimento é certo. Mas, vá dizer isso aos presidentes das associações que sentavam na mesa e davam “pitacos” que Eduardo Campos fingia ouvir?

E como tudo que é ruim pode ficar pior, ainda teve o lance do reajuste da Policia Civil. O reajuste, tecnicamente, está certo, deu uma geral na carreira de delegado e um ajuste na dos agentes. Faltam algumas coisas, mas a estrutura está montada. O problema é como isso foi visto pela PM.

O governo insiste que havia um calendário acertado. Isso é verdade. Mas, quando o Diário Oficial publicou os salários dos delegados até 2018 a tropa passou a fazer conta. Aí, quando veio a decisão de cumprir o calendário em 2017, as associações viram que não tinham mais lugar na mesa, pois, o discurso era de que só os coronéis iriam conversar com o Governo. O resto a gente já sabe.

No fundo, o drama do governador não é ter que passar o carnaval tomando café da manhã com o comando da SDS. O drama é saber que a conversa não está resolvida. Esqueça o barulho que os dirigentes das associações e as esposas fazem nas ruas. O problema é o clima que os coronéis – ao não conseguirem entregar um resultado que a tropa esperava – têm que gerenciar no Batalhão. Trabalhar todo dia com tropa armada, de mal humor, não é fácil.

Não dá para achar que esse discurso midiático de Ângelo Gioia, aliás, assumido por Paulo Câmara, de elogiar a PM em público, prometer promoção por bravura na imprensa e postar nas redes sociais vai dissipar o clima. O problema é muito mais profundo. Está no perfil da tropa entre os “poliça” e os hipster. E como eles leram a tabela de aumento e o que vão ler no contra-cheque.

O desafio do governador é como afinar a conversa dentro dos quartéis. Vamos conviver com uma longa batalha digital que existe na Internet. E no final, como explicar ao soldado, ao cabo e ao sargento que ele teve aumento e que sua aposentadoria vai ser maior, se no mês de abril o desconto do IR fará o salário de centenas deles vir com alguns reais a menor?

E, para completar, aqui vai um dado preocupante. Na Polícia Militar de Pernambuco, os 40 mil contracheques do pessoal ligado a ela, revelam que existem 22 mil militares na ativa. Os 18 mil restantes são da reserva (11 mil) e pensionistas (7 mil). O problema é que, em Pernambuco, 19.387 servidores públicos (civis e militares) já podem se aposentar este ano e entre os homens (4.627), a maioria é de militares. Este ano, Pernambuco, que tem 190 mil servidores, terá 52% de aposentados.

A crise está cobrando de Paulo Câmara a incapacidade financeira dos seus antecessores em contratar polícia. Certo, o caixa não permitiu isso a nenhum deles. Mas, parece claro que muita gente dentro do Governo ainda não percebeu que o perfil da PMPE mudou. E isso, daqui para frente, vai ser fundamento no jogo de qualquer negociação. Para o bem e para o mal.

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