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Enquanto o governo insistir e criar verdades alternativas sobre seus números a violência não cairá

17 / abr
Publicado por Fernando Castilho às 20:00

cvli

O Governo de Pernambuco conseguiu algo que faria qualquer estudante da cadeira de estatística ser reprovado no curso de nivelamento nas universidades federais brasileiras: Comparar a média de um mês como fevereiro (que tem exatos 28 dias) com a média de março – que tem 31. Isso é errado. Não existe isso de média mensal para números absolutos.

Estão aplicando uma criativa metodologia. Ou produzindo verdades alternativas. E assim temos algumas coisas bizarras como se dizer num documento oficial que, na média (- 0,21%), houve menos assassinatos em março (quando foram mortas 548 pessoas) se comparado com fevereiro quando houveram 496. Até porque num único trimestre temos o absurdo número de 1.522 mortes.

Da mesma forma que está errado em dizer que houve uma redução na média entre os dois meses de Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVP) quando, em março, 10.321 pessoas foram vítimas de um assaltante lhe apontando uma arma, ou foram vitimas de uma explosão de um caixa eletrônico, quando em fevereiro forma 9.962. O número importa pouco pois estamos falando de quase 10 mil pessoas que viveram esse drama. Então não faz qualquer sentido dizer que a média caiu 6,42% porque ninguém é assaltado na média. Até porque este ano já contamos 31.570 vítimas desse tipo de crime.

Outra coisa absurda é afirma que tivemos menos roubos de carros porque a média, entre fevereiro (28 dias) e março (31 dias), foi de 7,58% quando em março tivemos 584 carros roubados e em fevereiro 572.

Mas existem coisas que soam como uma agressão maior ao cidadão. O governo está dizendo que tivemos uma média diária menor de estupros (-3,85%) quando no mês de março 165 mulheres foram vítimas desse tipo e crime contra outros 155 em fevereiro. Estupro é um crime hediondo. Isso é um desrespeito às 497 mulheres que, este ano, sofreram o drama pessoal de serem violentadas sexualmente. Por acaso alguma mulher é violentada na média?

Isso não quer dizer que a Polícia esteja parada. Não é disso que se trata aqui. O que se questiona é o desrespeito de tentar se distorcer números absolutos de uma forma que agride a inteligência das pessoas. Como dizer que há redução se, em março, tivemos 52 assassinatos a mais que em fevereiro. Que em março tivemos menos crimes contra o patrimônio quando foram 359 a mais que em fevereiro? Ou que houve redução de estupros quando 10 mulheres a mais foram violentadas em março que o total de fevereiro?

Calma, não se deve achar que não houve avanços. Existem, mas não se pode achar que houve progresso apresentando uma estatista que distorce a realidade vistas nas ruas. Não há porque desconhecer os resultados de melhoria em algumas áreas. Mas não podemos nos distanciar da realidade. Estamos falando números de uma guerra urbana.

Talvez o problema da Polícia e do Governo do Estado seja o esforço em mostrar que se basta como gestor da crise. Não temos, rigorosamente, nenhuma atitude de pedido de apoio à comunidade. Não há campanha de denúncia da violência com o pedido de participação da sociedade. É como se os pernambucanos estivessem de um lado e Polícia do outro. Sem que o cidadão se sinta participe da solução dessa tragédia ninguém vai ajudar.

E ele só vai ajudar se a Polícia mostrar que precisa de uma reação da comunidade. E que a sociedade comece a se movimentar nessa direção. Agora sejamos sensatos? Qual o cidadão que vai se dispor a ajudar de alguma forma quando o governo não pede ajuda e apresenta planilhas que tratam o cidadão como apenas um número?

Não se pode achar que movimentos sociais, igrejas, políticos e empresários se disporão a ajudar quando a Polícia não revela sequer quem eram essas 1.522 pessoas que foram mortas com o neologismo estatístico de CVLI.

Não se sabe o sexo, a cor, de foram mortas, onde morreram e em que situações foram mortas. É ironia pois parte delas (em três meses  e por terem os réus conhecidos) já estão sendo analisado pela Justiça. Mas para a Polícia são apenas um número no quadro geral.

E talvez na visão do governo sejam mesmo.

estupros

 

 


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