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maio

Na greve dos caminhoneiros, o governo Temer tratou de maneira analógica um movimento digital

30 / maio
Publicado por Fernando Castilho às 7:50

Nos últimos dias, para justificar a dificuldade em negociar com os caminhoneiros, os ministros do governo Temer têm divulgado a versão de se tratar de movimento difuso, sem lideranças conhecidas, que se comunicam pelo WhatsApp, cuja pauta agora é pela “intervenção militar”. Pode ser, mas é uma reação analógica a uma crise ancorada inteiramente no meio digital.

Pode-se dizer que é difícil para ministros com mais de 60 anos, que usam o WhatsApp apenas em grupos de acordo com a hierarquia estatal e limitam sua participação nesses grupos a troca de informações com parlamentares e jornalistas. Certo, mas porque se era uma mobilização ancorada no meio digital os ministros não pediram ajuda aos analistas das consultorias de mídias digitais, que atendem ao Palácio do Planalto?

Na verdade, o cliente governo (Federal ou estadual), de forma geral, tem a ideia de que as mídias sociais são apenas para fazer publicidade e colocar comunicados e releases de uma ação pública. No caso dos caminhoneiros, além de ter desprezado a avalanche de apoio que o movimento estava tendo nas redes sociais há três semanas, os ministros de Temer só trataram o fenômeno através de entrevistas coletivas e notas oficiais.

Sem ter movimentado, por exemplo, a capacidade de produção de conteúdo do governo no próprio WhatsApp. E sem isso, a única opinião nas redes foi a dos caminhoneiros somada à tempestade de fake news circulando sem qualquer contraponto da opinião oficial. Ou seja, enquanto os caminhoneiros com suas centenas de grupos trocavam informações em tempo real, o governo ancorava sua defesa apostando na analógica entrevista coletiva das 18h.

Rede Social não diminui a importância da articulação política, troca de informações com o Congresso e os relatos do Gabinete de Segurança Institucional. Mas, ficou claro que, até hoje, o governo Temer não colocou seus argumentos nelas, nivelando a comunicação com os caminhoneiros. E isso favoreceu a ideia do “todos contra tudo” resumida em “intervenção militar”.

Isso não excluiu a utilização de grupos políticos mais organizados aproveitando-se da difusão do movimento para fortalecer suas teses usando a força do bloqueio. Também não se pode descartar os equívocos dos ministros de Temer ao apenas apostar na representatividade dos interlocutores sentados na mesa em Brasília.

Mas o que ficou evidente na condução do processo é que mesmo tendo dezenas de páginas e centenas de grupos no WhatsApp, o governo Temer apostou no analógico. Talvez porque na cabeça dos ministros envolvidos estar nas redes sociais é saber mandar um vídeo para alguém do grupo ou um Twitter dizendo “está tudo resolvido”.


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