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set

Encarando a Estrada da Morte

09 / set
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 15:17

O convite pode ser fatal. E é. Descer de bicicleta 64 quilômetros pelas beiras de uma montanha a 4.700 metros de altitude em uma estrada de terra, cheia de pedras e buracos, que em alguns trechos chega a ter apenas três metros de largura ao lado de precipícios de até 600 metros de altura. Tentador não? Não! Porém este que vos fala (e se fala é porque sobreviveu) não resistiu ao citado convite de encarar a famosa e auto-explicativa “Estrada da Morte”, na Bolívia.

Contam que a estrada conhecida como “Camino de los Yungas” foi construída por prisioneiros de guerra paraguaios na década de 30. Reza a lenda que as mortes ocorridas na via foram uma vingança dos que foram obrigados a construí-la. Acredite ou não o fato é que, segundo relatos, mais de 200 pessoas morriam por ano em acidentes com carros, ônibus e motos no perigoso trajeto que serpenteia a montanha. A “fama”, inclusive, foi oficializada. Na década de 90, o Banco Interamericano de Desenvolvimento a classificou como a “estrada mais perigosa do mundo”. Curiosamente após o título ela virou atração turística, sendo utilizada pelas agências bolivianas para a prática do downhill de desafiar a morte.

As mortes aos poucos diminuíram, sobretudo quando foi construída uma via alternativa na região em 2007. Diminuíram, mas ainda ocorrem. Há registros de que cerca de 20 ciclistas já morreram fazendo o percurso que, convenhamos, não é dos mais convidativos. Do lado direito o paredão da montanha que por vezes conta com deslizamento de terra ou pedras. Do lado esquerdo, abismos imensos na maioria das vezes sem proteção alguma. Pela frente, um estreito e longo caminho em zigue-zague. Para trás ficam o medo e a adrenalina. Muita adrenalina.

AGÊNCIAS

O cuidado começa muito antes do início do “passeio”. Na verdade, na hora de escolher com quem fazê-lo. Em La Paz, existem dezenas de agências oferecendo o downhill, o mais requisitado por quem procura aventura na capital boliviana. Todas oferecem o translado, equipamentos de segurança (macacão, luva e capacete), fotos, vídeos, guias, lanche no meio, almoço no final (se você chegar, claro) e o mais importante: a bicicleta.

A adrenalina das tirolesas da Bolívia

A dica é ficar bem atento à qualidade e ao bom estado dela, afinal ela é quem vai lhe fazer contradizer a tal estrada da morte. Os preços não são tão diferentes, girando em torno de 250 reais. Depois de pesquisar em sites de mochileiros e visitar pessoalmente algumas agências, optei por uma mediana chamada Barracuda e não me arrependi. Pelo simples motivo de poder estar aqui escrevendo essa experiência.

TRAJETO

O dia (que pode ser o seu último) começa bem cedo. Por volta das 7h, a van da agência passa pra lhe pegar no lugar em que estiver hospedado em La Paz e cerca de uma hora depois você já está em La Cumbre del Cristo, o ponto mais alto que se pode chegar na montanha, a quase 4.700 metros de altitude. Ao sair da van quem dá a recepção é o frio e o ar rarefeito. É preciso se alongar e se movimentar bastante para esquentar o corpo para o desafio, enquanto os guias passam as instruções.

Perto das 9h, tem início a longa a descida de 3.500 metros de altitude ao longo de 64 quilômetros. O primeiro trecho é o mais curto, fácil e rápido. Já que é a parte de asfalto e facilmente se pode chegar facilmente a 60 quilômetros por hora. Então se aprende desde esse ponto a controlar a empolgação e usar bem os freios para acabar não tendo um infeliz encontro com os carros e caminhões que cortam a rodovia.

Passado o primeiro trecho, o grupo volta para van e guarda as bicicletas com a falsa impressão de que o perigo não passa de folclore. Mera impressão. Alguns minutos depois, o veículo pára na parte em que começa de verdade a famosa estrada da morte. Ao sair da van você já dá de cara com o (atrativo ou repulsivo?) cartão-postal: Uma descida a perder de vista em um zigue zague sem fim pela costa da montanha em uma estrada. Realmente curta. Realmente alta. Sem tirar os olhos do que está por vir, o grupo recebe as últimas orientações dos guias até chegar a…

HORA DA VERDADE

Uma respirada profunda e lá vamos nós. Um guia vai de bicicleta na frente do grupo, outro no meio e um terceiro no final. A van vai seguindo atrás com os equipamentos de primeiros socorros e uma maca de imobilização que todos esperam não utilizar. Logo na primeira curva, a lição: foco, o tempo todo. A tendência natural é olhar para o abismo que se aproxima, mas atenção deve estar sempre nos poucos metros de largura da pista que consequentemente te dá poucas chances de manobras em casos de quedas ou escorregões.

Como se trata de uma grande descida, quase não é preciso de fato pedalar, apenas ir controlando a velocidade com os freios. Logo outro aprendizado que vem rápido é não querer ser rápido. Em locais como esse não convém confundir excitação com afobação. Lembre-se, não é uma corrida contra o tempo e sim contra a morte. As cruzes no meio do caminho recordam muito bem isso. Vale então a velha máxima de para-choque de caminhão que diz pra “perder” minutos da vida e não a vida em minutos. As aspas são porque não se perde tempo indo um pouco mais devagar e curtindo a paisagem exuberante da floresta boliviana.

Para não só curtir e também registrar a beleza selvagem do lugar são feitas algumas paradas no trajeto. Momento de se contar não só as histórias da estrada, mas também de contar se todos realmente chegaram ali e não ficaram pelo caminho (ou no fundo dos precípcios). Hora também de tirar fotos pra poder comprovar que encarou o desafio da morte. Afinal não é só sobreviver e também curtir – assim como fazemos no próprio caminho da vida.

Antes de retomar a aventura é prudente dar uma conferida na bike, ver se está tudo ok com os pneus e engrenagens. Daí é só seguir adiante sempre com cautela que o trajeto deixa de ser perigoso e passa ser prazeroso. A sensação de liberdade sob duas rodas é tão grande que nem se nota estar pedalando há horas. Com tanta adrenalina, quando menos se espera o percurso chega ao fim por volta das 14h. É no pequeno vilarejo de Coroico, na região dos Yungas, a 1.295 metros de altitude, que o grupo faz a parada final para um merecido descanso e nunca tão deliciosa refeição.

Dois mundos bem diferentes parecem ser divididos entre o momento em que se senta na bike pela primeira vez até o ocasião em que a deixa por completo. Diferentes não só no altitude de 3.500 metros. Diferentes não só no clima do frio e chuva na montanha para o calor e secura da floresta tropical. Diferentes, sobretudo, na atitude. Porque no primeiro mundo você queria desafiar a morte. E no segundo você ganhou a vida. Nova vida. Para novas estradas.

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