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set

Um repórter à deriva na Refeno

24 / set
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 11:11

Há quase dois anos lá estava eu escrevendo essas tortuosas linhas (efeito do balanço do mar), por vezes molhadas pelos respingos das ondas, sentado na popa de um veleiro em algum ponto do Oceano Atlântico velejando do Recife em direção a Fernando de Noronha, distante 290 milhas náuticas do continente, cerca de 545 quilômetros. A bordo do catamarã Ciranda fazia a cobertura da 27ª Refeno pela primeira vez de dentro de uma embarcação na recém-criada categoria Imprensa, na qual fiquei em último lugar entre três participantes. A colocação final pouco importava para quem só queria se colocar no final: novamente em terra firme.

O terceiro lugar na Refeno foi uma vitória porque em primeiro lugar tivemos que lutar pela vida. Afinal, enquanto marinheiro de primeira viagem, encarei infinitas 43 horas em alto-mar navegando ora no calor escaldante, ora no frio congelante, tendo a companhia ininterrupta do medo do desconhecido e com direito à quebra de mastro, barco à deriva e resgate. Se não vencemos a regata, vencemos a nós mesmos e um oceano de incertezas que só nos damos conta que nos margeia nos momentos mais críticos. Contando com quem está do lado – como se faz em qualquer ciranda –, toda a tripulação se ajudou e conseguiu atingir o objetivo de completar a viagem.

Chamei de tripulação no sentido técnico porque, na verdade, ganhei uma família no mar (e fora dela também) ao longo da Refeno. Eu a conheci somente dois dias antes da viagem. No jantar de confraternização pré-regata, lá estavam o comandante Sérgio Avellar, sua esposa Valéria e o irmão Gustavo. Os filhos (Flávio, de 25 anos, Ana, 12, Júlio César, 9, e João Guilherme, 7) e o experiente lobo-do-mar Luiz Manoel de Lima, o Luizão, 76, completavam o grupo. “Ah é você que vai com a gente é? Se deu mal, vai trabalhar que só!”, brincou o comandante ao me ver de longe, sem saber o tom profético das palavras ditas. Apresentações feitas, orientações dadas, remédios para enjôo tomados.

Sábado, 26 de setembro, às 13h30, foi dada a largada para a classe Mocra na Refeno da qual o Ciranda fazia parte, no Marco Zero do Recife. Depois dos acenos direcionados à terra, barco direcionado ao oceano. Assim, aos poucos, o gigante cinza dos prédios foi cedendo lugar ao colosso azul dos mares. Igual à vista, a casa também era nova. E como balançava. Conhecer o catamarã foi fácil, o difícil foi se equilibrar nele com a batida das fortes ondas. “Aqui dentro aprenda: é uma mão para você e outra para o barco. Ou seja, sempre esteja apoiado em alguma coisa quando estiver em movimento”, me ensinou o professor dos mares, Luizão, circulando pelo barco com lentidão, mas exatidão.

Veio a fome e com ela novas e saborosas surpresas. Engana-se quem pensa que comida de barco na Refeno são só aquelas gororobas. A capitã da cozinha, Valéria, nos deliciou com cardápios com lasanha, pizza, croissants e até arrumadinho de carne de sol e calabresa. “Se temos um cuidado de fazer algo gostoso e com carinho em nossa casa, por que não fazer isso na nossa segunda casa que é o barco?”, questionou Valéria, sendo acompanhada por sinais positivos para o que disse – e para a comida também.
A mesma aprovação, no entanto, não pôde ser dada para a digestão, dificultada pelo balançar da embarcação. Para a surpresa de todos os tripulantes (e até de mim mesmo), em nenhum momento enjoei e passei mal a ponto de fazer oferendas naturais ao mar. Óbvio, graças à ajuda providencial de remédios.

O vai e vem das ondas durante a Refeno só complicou mesmo na hora de dormir, algo que acredito só ter conseguido fazer a conta-gotas cerca de 3 horas no total nos quase dois dias de viagem. No barco até havia duas camas, porém, como a parte interna é a que mais balança, me restou tentar adormecer nos bancos da popa. O problema era o vento, o frio e, pra piorar, a água gelada que por vezes respingava nas ondas mais altas.

Porém, o que me fez perder o sono de verdade foi a inesperada quebra do mastro no início da noite de domingo. O impacto foi tão forte que ele se partiu em três pedaços. Como parte do mastro e cabos ficaram na água não era seguro ligar o motor. Por isso, foi preciso pedir o resgate e ficamos quase duas horas à deriva. Chegamos até a soltar um localizador no céu para ser encontrado pelo veleiro Kaka Maumau. Um mergulhador deles foi até o nosso barco e fez os reparos necessários para completar a viagem usando o motor.

Exaustos física e psicologicamente, foi difícil para os tripulantes mais experientes conduzir o catamarã noite a dentro para completar o percurso da Refeno. Isso sem o auxílio do GPS e piloto automático danificados pela quebra do mastro. Tanto que até eu no meu turno de trabalho na madrugada peguei o timão e também ajudei a comandar o barco, tendo apenas como referência a luz do Kaka Maumau que seguia milhas à frente. O momento se tornou ainda mais marcante porque fui justamente enquanto ocorria o eclipse da lua.

Horas depois a escuridão deu lugar à luz do amanhecer e com ela veio de longe os desejados primeiros sinais de terra à vista. Por questão de honra, mesmo sem estar mais participando por termos ligado o motor, fizemos questão de passar pela linha de chegada da ilha. Pelo rádio recebemos os cumprimentos e a cada embarcação que cruzávamos os tripulantes faziam questão de ir para o convés para aplaudir a nossa chegada na Refeno.

Somente pela graça de Deus e a coragem e a união dos tripulantes é que estas tortuosas linhas citadas no início da reportagem agora estão sendo lidas por você. Uma lição que, nem havia me dado conta, estava gravada nas costas da camisa da equipe/família Ciranda que com orgulho vesti. Logo abaixo de um desenho da Rosa dos Ventos vinha uma frase de Amyr Klink: “O mar não é um obstáculo. É um caminho”.

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