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set

#ElasCidades – O tango azarado de Buenos Aires

29 / set
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 17:45

#ElasCidades

“Hoje é minha única noite aqui e eu preciso aprender a dançar tango!”, disse a moça com sotaque paulista e tom imperativo para o rapaz no balcão do hostel onde eu estava hospedado em Buenos Aires.

O atendente também brasileiro respondeu que ela estava com sorte. Explicou que em poucos minutos um van iria passar no local para levar até um espaço onde teria aula, jantar e show de tango e apontou para mim, sentado no banco ao lado, ao citar que um outro brasileiro já estava à espera. Azar foi a expressão no rosto dela. Não pelo passeio. Sim pela companhia em plena Buenos Aires.

“Eu vim de tão longe pra dançar aqui com um brasileiro? Por favor, né! Esperava um argentino pelo menos”, questionou, de forma irônica. A aula de simpatia foi interrompida por um som da buzina. Fingindo não ter escutado a queixa, prontamente me encaminhei para a van. Outro som, agora de tapas na porta do veículo, interrompeu a partida do mesmo.

Novamente reclamando entrou na van e novamente se deparou com o azar ao notar que estava tomada por casais de gringos e o único lugar vago era ao meu lado. “Vou nem dar buenas noches porque já sei que é brasileiro”, avisou ao sentar para depois calada ficar até ao destino chegar. “Quanto azar!”, agora fui eu quem disse em pensamento. Não vou negar. Também esperava conhecer e dançar com uma hermana em Buenos Aires, mas já que o destino trouxe uma irmã que ao menos ela não fosse essa miss simpatia.

Fazer o quê? Esta certamente foi a pergunta que ambos fizemos em pensamento quando ao chegar na casa de tango o professor nos juntou porque todos os outros eram casais. “Nós não!” Afirmamos quase em uníssono. Depois, resignados, ouvimos a história do ritmo. “O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Pudemos ver isso na prática. Tristes aprendemos e executamos os passos. De forma fria, mecânica, ao som do lamento cantado por Carlos Gardel. “Por una Cabeza” arranhada nos violinos e nas nossas cabeças a melancolia típica do ritmo.

Veio então um quente jantar para quebrar o gélido momento. Os vários vinhos servidos depois também ajudaram a aumentar a temperatura. A sensação ficou ainda mais acalorada quando os casais de bailarinos subiram ao palco. Finalmente vimos um tango de verdade. Tenso e intenso. O espetáculo desceu do palco e foi até as mesas. A bailarina estende a mão, eu a beijo e me levanto. Tento executar os passos aprendidos. Se acertei ou não, pouco importava.

Pelo ombro da bailarina de Buenos Aires, vi pela primeira vez uma feição alegre da minha companheira de aula. Ela também havia sido convidada a bailar, também estava feliz. Ambos conseguimos nossos objetivos de dançar um tango com argentinos. A noite já poderia acabar. Mas não acabou. Ao contrário começou quando no meio da música os bailarinos nos conduziram um ao outro para dar continuidade a ela.

Os sorrisos que antes se fechavam se abriram ainda mais. Largos como os passos que instintivamente demos juntos. Quem outrora se evitava agora se entrelaçava. Giro de corpos e ânimos. Exaltados pela música, exalados pelo vinho. Um beijo. Intenso e dramático como um bom tango deve ser. Aplausos externos e internos.

Buenos Aires

Naturalmente o motorista da van estranhou ao notar os desconhecidos frios na ida se transformarem no casal quente do fundo do veículo na volta. Se espantou ainda mais com o pedido deles para descer na primeira milonga que aparecesse no caminho em Buenos Aires. Pelo retrovisor viu os dois dançando na esquina antes de entrar no recinto onde os argentinos se reúnem para dançar.

Em meio aos casais bailando metodicamente, um desgovernado trombando alegremente. Um êxtase interrompido no meio do salão ao vir a lembrança de que era a última noite dela.  “O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. O professor tinha razão. Porém no momento da aula estávamos tristes porque não nos queríamos perto. Agora por não nos querermos longe. A música acaba. A noite também.

Na chegada ao hostel, igual ao motorista da van, o atendente também estranha o retorno de mãos dadas e relembra o que havia dito a ela: “Eu falei que você estava com sorte”. Os risos vão da recepção até o elevador. Eu aperto o meu andar, ela o dela. Não paramos em nenhum dos dois. Decidimos ir mais alto. Até o céu de Buenos Aires para alegrar o triste tango de uma noite de sorte.

*O #ElasCidades são contos (fictícios?) sobre as paixões do @blogmochileo pelas cidades e/ou/quase sempre por suas habitantes. Cada lugar – e as que vivem nele – guarda seu charme único. Como não se apaixonar? Toda sexta (não à toa) o #ElasCidades será publicado [qualquer semelhança com a realidade pode ser, ou não, mera coincidência].

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