06
out

#ElasCidades – A aposta das termas de Pucón

06 / out
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 11:51

#ElasCidades – A aposta das termas de Pucón

A aposta das termas de Pucón

“Cuidado, a temperatura vai subir”, disse, entre risadas, para mim o brasileiro da recepção do hostel de Pucón, a 780 km ao Sul de Santiago, ao ver que estava me preparando para sair. Destino: As termas de Los Pozones. A brincadeira, no entanto, não era em relação ao local que iria, mas com quem eu iria. “Aguenta aí um pouco que acabou de chegar um pessoal aqui no hostel que também vai querer fazer esse passeio”, avisou, com um sorriso nada discreto.

Sem dar muito crédito ao tom dele, disse que estava apressado pois havia me programado para acordar cedo e o ônibus até as termas ia passar em 5 minutos no centro da cidade. Por isso disse que não ia dar pra esperar. “Hola! Hola!” Pareceu eco, mas eram duas vozes. Duas chilenas que surgiram na recepção. “Então cara, como eu te falei, são elas que querem ir pro passeio, pena que você tá tão apressado”. Pressa? Que pressa? Meia hora depois lá estava eu saindo do hostel sorridente e muito bem acompanhado.

Quando estávamos chegando no portão, ele gritou. “Quero ver se vocês se garantem mesmo e encaram a última terma sem roupa, eu aposto que não!”. Eu não iria nem traduzir, mas elas entenderam e riram. No caminho eu expliquei que era uma brincadeira dele ao ter me dito que a última das termas era a mais distante e quente e por isso havia desafiado a aguentar a temperatura como se veio ao mundo. Elas entenderam e riram novamente. “Está apostado então”, falou, convicta, a mais nova das amigas. Quem não gosta de um desafio? Um desses então…

Depois de uns 40 minutos de viagem, o ônibus nos deixou na estrada em frente às termas. “Cuidado, a temperatura vai subir”, lembrei da frase do brasileiro ao ler a placa de boas vindas do local. Lá estava escrito que Los Pozones são um conjunto de cinco termas naturais formadas pela proximidade dos vulcões com temperaturas que variam de 36 a 44 graus! A alta temperatura contrastava com a baixa do lado de fora por volta de 10 graus, em um dia de inverno, com vento forte e chuva fina. Claro que deu vontade de desistir. Claro que não fiz isso.

Em um dia pouco convidativo poucas pessoas se aventuraram a visitar o local. Na primeira terma que fica perto e não tão quente devia ter, além de nós, umas sete pessoas. Com a mesma rapidez que se tira a roupa e a deixa em um armário é preciso correr para a piscina para não congelar de traje de banho do lado de fora. A entrada, de fato, é relaxante. A água quente faz você agradecer por ter chegado nela.

Depois de uns 15 minutos, uma nova corrida no frio para chegar até a segunda terma mais quente, distante uns sete metros. O ritual foi se repetindo com banhos mais demorados nas piscinas que iam ficando mais quentes, mais distantes e com menos gente. O choque térmico era inevitável. O choque entre os corpos também. A busca de um aquecimento um no outro acontecia naturalmente. Pouca roupa, muito frio. Pouca distância, muito calor. Contrastes demais. Pudor de menos. O trio seguia a trilha. Uma trinca proibida.

 

O vapor exalado das águas dava ainda mais o tom de sonho. Parecia que as nuvens do céu tinham encostado no chão para participar daquele momento. Uma densa cortina de fumaça cobria o que não deveria ser descoberto. Descobriu-se ali na penúltima terma, onde estavam somente nos três, uma ebulição maior que na água. Bruscamente interrompida por um sinal sonoro que lembrou de que o horário de voltar se aproximava. De forma súbita, a mais velha saiu da água e disse que iria começar a se arrumar para ir embora.

Como só restava mais uma terma, a mais quente e distante, eu e a outra chilena decidimos ir. Realmente a água quase queimava a pele. Todavia, já havia outras sensações a flor da pele. Despetalar as vestes. De vez. A aposta! Despidos de qualquer vergonha a cumprimos. Depois do desafio lembrei novamente da frase “Cuidado, a temperatura vai subir”. Sábias palavras. Agora vai ver lá no começo se foram elas que abriram o texto e me deixa um pouco reservado que aqui o calor tá grande e temos muito o que fazer até a hora de voltar.

*O #ElasCidades são contos (fictícios?) sobre as paixões do @blogmochileo pelas cidades e/ou/quase sempre por suas habitantes. Cada lugar – e as que vivem nele – guarda seu charme único. Como não se apaixonar? Toda sexta (não à toa) o #ElasCidades será publicado [qualquer semelhança com a realidade pode ser, ou não, mera coincidência].

*Acompanhe o @blogmochileo também pelo Instagram, Twitter, Facebook e Youtube.


Veja também