09
jul

Crítica: ‘Grande Sertão: Veredas’, de Bia Lessa, é forjado pela descoberta do amor e do mundo

09 / jul
Publicado por Márcio Bastos às 21:29

Nonada, neologismo que pode designar algo sem muita importância, abre Grande Sertão: Veredas e é também uma das últimas palavras pronunciadas por Riobaldo, protagonista da epopeia de Guimarães Rosa. Seu uso é apontado por vários estudiosos da obra do escritor mineiro como um antônimo do símbolo do infinito que encerra o livro. A interpretação dessa jornada do simples ao profundo é abraçada por Bia Lessa em sua transposição do livro para os palcos, apresentada domingo (8), no Teatro Guararapes.

Familiarizada há tempo com a obra de Guimarães Rosa (ela foi a responsável pela exposição em homenagem ao livro no Museu da Língua Portuguesa, em 2006), a diretora consegue reverenciar o texto sem se prender a ideias batidas do que é o sertão. Ela propõe uma imersão em uma natureza que é mais do que circunscrita geograficamente – é também metafísica.
Em cena, Caio Blat como Riobaldo é hipnotizante. Ele domina o texto e corporifica os sentimentos conflitantes de seu personagem, jagunço cheio de questões sobre o existir e que desenvolve uma paixão por seu colega de bando, Diadorim (Luiza Lemmertz).

Luísa Arraes, assim como todo o elenco, brilha em cena. Foto: Annelize Tozetto/Divulgação

O trabalho de corpo do elenco é impressionante e transita com naturalidade da aridez da jagunçagem à delicadeza dos pássaros. Quase todo o elenco, formado ainda por Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin, José Maria Rodrigues, Balbino de Paula, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian e Clara Lessa, tem chance de brilhar.

TANTA VIDA

A encenação acontece dentro de uma estrutura tubular, mas bonecos de feltro se espalham pelo teatro, convidando o espectador a entrar naquele universo antes mesmo do “início” da história. Usa-se, aqui, as aspas porque, quando as portas são abertas, já é possível ver os atores em cena, se aquecendo.

A proposta, inclusive, parece ter uma potência maior em espaços mais intimistas. Enquanto poucos puderam ficar em uma arquibancada montada na parte de trás do palco, bem próximos dos atores, a maioria do público teve uma experiência bem diferente.

Para além da distância, apenas aqueles que estavam no palco usavam fones de ouvido, como propõe o trabalho, o que garantia uma experiência mais imersiva, com diferentes camadas de som e mais destaque para a delicada trilha sonora assinada por Egberto Gismonti. Nada, no entanto, que tire o impacto da obra.

Grande Sertão: Veredas aos olhos de Bia Lessa é uma tentativa de descoberta do amor e do mundo, do nosso lugar nele, sozinhos e em comunidade. Cada um trilhando como pode, por vezes altivo, em outros cambaleante, como é a própria vida.


Veja também