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FIT Rio Preto 2018: curadoria abre espaço para os oprimidos

11 / jul
Publicado por Márcio Bastos às 7:57

‘Isto É Um Negro?’, dirigido por Tarina Quelho. Foto: Rodrigo de Oliveira/Divulgação
Os festivais sempre tiveram uma função essencial no fomento da cultura. Diante desanimador cenário atual, com o enfraquecimento do MinC e das secretarias de cultura em vários estados e cidades da federação, cortes de verbas de instituições públicas e privadas e censuras motivadas pelo conservadorismo, esse caráter de agregar criadores de vários locais ganha ainda mais importância. Por isso, a curadoria do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto), que segue até sábado na cidade do interior de São Paulo, pautou espetáculos que explicitassem as vozes historicamente oprimidas a fim de estimular os debates.
“Tivemos uma discussão muito séria em torno dessas questões dos lugares de fala, dessas vozes insurgentes que vêm tendo uma visibilidade nas mídias, nas redes e na produção artística em geral. As questões do racismo, trans, da sexualidade e do feminino, por exemplo. Estamos em um momento da produção brasileira no qual essas vozes encontram espaços de ressonância. Mas, há resistências porque nem tudo é consenso; a sociedade tem pensamentos de todas as ordens”, reforça Sérgio Luís Venit Oliveira, que assina a curadoria junto à Janaína Leite e Marcos Bulhões.
Dentro dessa perspectiva, o festival reúne trabalhos como Isto É um Negro?, do Coletivo Chai-Na, dirigida por Tarina Quelho (SP), que parte de textos de ativistas como Angela Davis e Bell Hooks para discutir o racismo; e Mortos Vivos: Uma Ex-Conferência, da Foguetes Maravilha (RJ), que toca em temas como alteridade, xenofobia, fascismo, preconceito, tortura, a banalidade do mal e o fascínio pela violência.

VISÃO TRANSFORMADORA

“Há na classe artística em geral uma visão de mundo transformadora, incômoda, que coloca problemas às vezes nunca colocados ou trazidos de forma abafada”, reforça o curador do FIT Rio Preto.
‘Preto’, da Companhia Brasileira de Teatro. Foto: Nana Moraes/Divulgação
O FIT Rio Preto, que tem 49 anos, sendo 18 deles com perfil internacional, este ano ganhou novo fôlego com a retomada da parceria com o Sesc (nos últimos anos, o evento vinha sofrendo com problemas financeiros).
A longevidade do evento, assim como o investimento nas apresentações e atividades, contrasta com a situação de outros festivais do país, cada vez mais modestos devido aos cortes. Ao todo, serão 20 espetáculos – de três países e seis estados brasileiros –, totalizando 50 apresentações.
“Desde o impeachment, os recursos para cultura escassearam e em muitos lugares houve desmonte. De modo geral, há insuficiência histórica de incentivo à criação e os festivais têm um papel importante de oxigenação porque são recursos destinados a visibilidade das criações e fomentam os processos das companhias com os encontros, as trocas. Os festivais também oxigenam as cidades com as apresentações e as atividades formativas”, acredita.


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