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FIT Rio Preto 2018: Cia dos Pés faz ode à comunicação em ‘Eufonia’

12 / jul
Publicado por Márcio Bastos às 17:58

Foto: Ferdinando Ramos/Divulgação

A comunicação, como se sabe, está longe de ser resumida ao verbal. A aprendizagem de ferramentas que ajudem a interpretar o mundo e se fazer entender pelo outro é um processo intenso, que tem início nos primeiros instantes de vida. A Cia dos Pés (SP) pesquisa essa questão em Eufonia, espetáculo apresentado no Sesc Rio Preto, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto.

Idealizada para a marcar os dez anos da companhia rio-pretense, celebrados em 2017, a peça acompanha uma cigarra, interpretada por Angélica Zignani, em seu processo de descoberta da vida. Ela tem dificuldade com as palavras, emitindo sons um tanto atrapalhados, mas aos poucos percebe que pode utilizar outros recursos, como seu corpo, para se fazer entender. Nesse processo, ela interage com outros seres que habitam o jardim onde ela vive e a cada encontro amadurece sua habilidade comunicação.

Angélica Zignani em cena de ‘Eufonia’. Foto: Ferdinando Ramos/Divulgação

O grupo trata a questão de forma lúdica e inteligente. O cenário é muito simples, mas criativo. A estrutura em que inicialmente vemos a cigarra (e emula o animal real) é acoplada a uma árvore e servirá, ao longo do espetáculo, como casa para a personagem. Mas, é no entorno que a cigarra vai evoluindo. O som de uma motosserra, vez por outra irrompe, causando terror na personagem.

Essas metáforas de um mundo assustador fora do nosso casulo é muito efetiva e trabalhada com maestria pelo grupo. Angélica Zignani tem uma presença marcante e usa diferentes técnicas corporais para exprimir as mudanças pelas quais passa a personagem.

Aos poucos, ela consegue formular algumas palavras, como medo, e o processo até a sua independência – e o eventual abandono do casulo e do jardim – é poético. Amparada por um interessante desenho de luz, a dramaturgia é potencializada pela sonoplastia, que exerce papel fundamental na montagem.

A sessão, bastante cheia, reuniu um público heterogêneo, com crianças de diferentes idades. Algumas, bem mais novas, se expressavam com risos, grunhidos e choro, tentando, assim como a cigarra. Os mais velhos, intrigados pela falta de palavras, mas compreendo, graças à imaginação, o que se passava ali, tentavam muitas vezes apontar, com frases, ações para ajudar a protagonista.

O trabalho da Cia dos Pés dialoga com a criança sem subestimá-la, em uma situação de horizontalidade. Não é difícil imaginar os vários debates que os pequenos travaram com seus pais ou entre si após a sessão, o que já é interessante. Para além do entretenimento imediato, estimular a imaginação e o intelecto infantil é um trunfo das artes.

* O jornalista viajou a convite do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto


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