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Hermínio Bello de Carvalho, tabernas, bares, e lendas da MPB

26 / jul
Publicado por José Teles às 1:16

Capa do novo livro de Hermínio Bello de Carvalho
Capa do novo livro de Hermínio Bello de Carvalho

Hermínio Bello de Carvalho é o que se pode chamar de fã realizado. Macaca de auditório de artistas da Rádio Nacional, frequentador dos lendários programas da igualmente lendária emissora, ele não apenas conheceu a maioria dos seus ídolos, como produziu discos, e compôs músicas, para eles. Foi o descobridor de Clementina de Jesus, amigo particular de Aracy de Almeida, de Pixinguinha e Cartola, de quem foi padrinho do casamento com Dona Zica, também foi Parceiro de muita gente boa, incluindo Chico Buarque, Paulinho da Viola. Há 50 anos, Hermínio Bello de Carvalho produziu um dos mais importantes espetáculos da música brasileira, o Rosa de Ouro, que reuniu as damas Clementina de Jesus, Aracy Cortes, com Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, trazendo o samba do terreiro para a sala de visitas.

Hermínio completou 80 anos em março, e ganha, com um pouco de atraso, mais um presente, o livro A Taberna da Glória e Outras Glórias, (Edições de Janeiro), compilação de crônicas sobre música popular organizada por Ruy Castro. As histórias são deliciosas, não apenas porque são muito bem escritas, mas porque Hermínio Bello de Carvalho viveu todas elas, é criador e criatura. Pessoa certa no lugar certo, ele entrou em cena, no começo dos anos 60, a tempo de conviver, documentar e gravar os arquitetos que traçaram as formas do samba carioca, Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Ismael Silva, Cartola, Nelson Cavaquinho, como também as estrelas da Era de Ouro do Rádio, Emilinha, Marlene, Elizeth Cardoso (de quem produziu discos), ou Isaurinha Garcia. Mas não se limita aos brasileiros, as divas do jazz, Sarah Vaughan e Nellie Lutcher fazem parte da trajetória de HBC.

O mote é a Taberna da Glória, ainda hoje funcionando, que teve como frequentadores políticos (fica próximo ao Palácio do Catete, antiga residência oficial do presidente da República), intelectuais como Mário de Andrade, e boêmios inveterados como o compositor Noel Rosa. Foi lá que Hermínio Bello de Carvalho conheceu Clementina de Jesus, mas outros bares do Rio figuram nas crônicas, do Gouveia, na rua do Ouvidor, onde Pixinguinha fazia ponto, ao antológico Zicartola, na Rua da Carioca. Locais em que se servem, ou se serviam, aquele assado ao molho de ferrugem impecável, e cervejas e chopes estupidamente gelados, onde Hermínio aprendeu e fez histórias.

Indiscreto, as vezes resvalando para a galhofa e o humor negro, Hermínio Bello de Carvalho tem um texto leve,  pessoal e intransferível. Ao escrever sobre a cantora Isaurinha Garcia (A Giuletta Masina do Brás), revela o relacionamento tumultuado com o músico pernambucano Walter Wanderley, com o qual viveu . literalmente, entre tapas e beijos. Um relacionamento para Nelson Rodrigues nenhum botar defeito: “Telefonaram para Isaurinha convidando-a para o lançamento de um livro meu no bar Vou Vivendo, de São Paulo. A desculpa atordoa o interlocutor: – Sei não, meu filho. Eu estou muito a fim de me suicidar hoje. Mas seu eu mudar de ideia , eu vou,viu? Nem foi, nem se suicidou, obviamente”.

“Um amigo meu diz que carrego meus defuntos pelo corpo. No pulso, o relógio de Jacob do Bandolim. Nos dedos, o anel que me foi legado pelo divino Cartola. No armário, um vestido de Dalva Oliveira (que transferi para Alaíde Costa. Não teria como usá-lo). De Pixinga, este me deixou um lanho irreparável, um abraço dado na manhã de sua morte, e que até agora não desgarrou de mim”. Pelo corpo, e na memória, em lembranças que, de vez em quando. nos dá o prazer de compartilhar em seus livros.

Confiram Clementina de Jesus, descoberta de Hermínio Bello de Carvalho, em Yaô, de Pixinguinha: