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Jun

Mariano Marovatto atualizando arcaísmos

28 / Jun
Publicado por José Teles às 20:15

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Selvagem, terceiro disco de Mariano Marovatto, é um dos muitos desdobramentos da seminal missão folclórica de Mário de Andrade que, em 1938, registrou no Norte e Nordeste cantos, danças e rituais, e inspirou a que se fizessem empreitadas semelhantes pelo país. Marovatto estende sua “missão” até Portugal, reúne o que lá foi colhido com o que descobriu no Brasil no disco Selvagem (Embolacha), reprocessados com despojado. Apenas ele e Pedro Sá, que o acompanha uma guitarra despida de efeitos.

“Lá vem Sabino mais Lampião/Chapéu de Couro, fuzil na mão”, os versos de Lampião (composta em 1938), três meses antes da morte de Lampião e seu bando em Angicos. O baião perde a polirritmia original, com Pedro Sá tocando acordes cheios, com um solo violado em contraponto, quase um cantochão. Segue-se  Lá em Cima ao Castelo, antiga canção portuguesa, cantada durante as festas de maio em Monsanto, Castelo Branco, em Portugal, celebração à vitória dos aldeões para as tropas romanas no século II.

O álbum, está claro, tem repertório originado de tradicionais canções tradicionais brasileiras e lusitanas, mas a missão de Mariano Marovatto não é preservar o folclore, e sim lhe apressar as mudanças, apresentá-lo a seu modo. As músicas brasileiras vêm da caixa, com frutos da missão de 1938, organizada por Oneyda Alvarenga, colaboradora e amiga de Mário de Andrade (falecida em 1984).

A caixa, com oito CDs, foi lançada em 2008, na passagem dos 70 anos da missão. Já as canções portuguesas, Marovatto trouxe de registros feitos pelos pesquisadores Michael Giacometti (este italiano) e Fernando Lopes Graça, e de Max Peter Baumann e Tiago de Oliveira Pinto.

É no mínimo inusitado se escutar uma canção como Mineta, cantada pelas fiandeiras transmontanas, por sua vez pinçada de um antigo romance que tem origem no século XVI, gravada num estúdio em Copacabana (por Martin Scian), apenas com os dois músicos tornando o arcaico avant-garde. Um fragmento cantiga de cego nordestino, interpretada com sotaque português.

Duas culturas fáceis de se mesclar, uma está embutida na outra, explicitada em Embarquei para Portugal, apanhada de um reisado que faz a junção do Nordeste brasileiro com o Norte português. Em Perdigão, a desconstrução que lembra as lucubrações de Alvin Lucier em I’m Sitting in a Room, sobretudo pelo valorização da acústica valorizado a voz de Mariano e a guitarra e o vilão de Sá (Lucier usa apenas vozes em sua peça).

A japonesa participa desta Ami Yamasaki participa desta faixa, emulando o suposto som dos perdigõs, cantando um trecho da canção em japonês. Gravada em Toyohira, no Japão.

Selvagem, sublinha Mariano Marovatto é rebeldia não resgate de formas de se fazer no músico num passado distante, os etnólogos que as preservaram não o fizeram para continuarem imutáveis, mas serem reprocessadas, e consumidas por pessoas de outras eras, outros séculos.

Um disco possibilitado pela independência desfrutada pelo artista nestas primeiras décadas do século 21, sem obrigações comerciais, nem amarras contratuais com gravadoras. Paradoxalmente, em meio a bagaceira musical que domina o mercado musical brasileiro (e mundial), nunca se fez tanta música tão boa e tão ousada.

Mariano Marovatto gravou Aquele Amor, nem me Fale (2010), e Praia (2013), dos quais participaram, ou no estúdio, ou na composição, Pedro Sá, Jonas Sá, Ricardo Dias Gomes, geração da nova música carioca, que é meio meio samba, meio rock and roll, meio nada a ver.

Ele começou com toques indie e pop, na estreia, e dá sinais de que ampliaria os horizontes em Praia, encetando parceria com o português Tomás Cunha Ferreira, e gravando uma versão de Pavane (Fauré, 1887). Não daria para supor que chegasse a um disco tão radical em seu despojamento feito Selvagem.

Confiram Mariano Marovatto (e Pedro Sá), em Lampião:


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