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mar

Chuck Berry Fields Forever (1926/2017)

18 / mar
Publicado por José Teles às 23:20

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Chuck Berry nunca foi um doce de pessoa. Ao longo dos seus 90 anos, quase 91, ele teve que dar satisfações à polícia muitas vezes. Antes de entrar para a música, e se tornar um das vigas mestras do rock and roll, cumpriu três anos de cadeia, por assalto à mão armada. No auge da carreira, um envolvimento com uma menor, o levou de volta à prisão. Um personagem de romances picarescos do século XVII, perpetrando suas peripécias no século 20.

Redescoberto pelos músicos ingleses, endeusado pelos Beatles e copiado pelos Rolling Stones, o roqueiro, quase quarentão, mostrou-se quase sempre rude, vulgar e argentário a ponto de, durante turnê na Inglaterra, onde era idolatrado, a primeira coisa que fazia ao acordar era conferir a cotação do câmbio para atualizar seu cachê, que costumava receber em dinheiro vivo.

Esqueça-se este lado B (de “bad”), de Chuck Berry, e bote-se para tocar o lado A. Embora já entrado nos 30 anos quando formatou seu estilo de rock and roll, Berry, como um J.D Salinger, penetrou na mente do adolescente americano dos anos 50. Suas letras, de rimas engenhosas e inusitadas, falam de escola, carros possantes, de moiçolas sonhadoras, de relacionamentos juvenis, de sexo, embora não tão explicito e convencional quanto ele perpetrava na vida real.

Para embalar estas letras canções pop, um rhythm and blues reinventado, com riffs antológicos, e copiadíssimos, de guitarra, e um ritmo arquitetado com influência do saxofonista Louis Jordan. Uma obra reverenciada por gente que foi influenciada por ela, Bob Dylan, Leonard Cohen Bruce Springsteen, os Beach Boys, Rolling Stones, quase todas bandas da invasão inglesa de 1964. Chuck Berry foi um dos mais importantes inventores da música popular do século 20.

Roll Over Beethoven, Maybelline, Brown Eyed Handsome Man, Havana Moon, You Can’t Catch Me, Reelin’ and Rocking, Sweet Little Sixteen, Memphis, Tennessee, Johnny B Good, a lista dos sucessos de Berry é longa e irretocável, mas seu único primeiro lugar no paradão da Billboard, só aconteceu em 1972, com um rock de duplo sentido, My Ding a Ling.

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Corta para um noite fria em São Paulo, em 30 de setembro de 1993, um show extra do Free Jazz, de saudosa memória, na Concha Acústica do Pacaembu. Uma plateia relativamente modesta amontoa-se junto ao palco para ver dois pilares do rock and roll, Chuck Berry e Little Richard. Elvis Presley é o terceiro. Mas ele sem ele e Chuck Berry não haveria rock and roll, pelo menos como o conhecemos.

Elvis trouxe a música negra para a música branca, mesclando o country com o blues. Chuck Berry fez o inverso. Trouxe o country para o blues. Chuck Berry foi poeticamente inovador. Bob Dylan o considerava o maior poeta americano, não foi, claro. Mas reinventou, talvez mais do que Dylan, letra de música. Saiu do lugar comum do eu e você, eu sem você, ou você sem mim.

I SING THE BODY ELECTRIC

Escrevia feito um Walt Whitman cantando a América opulenta depois da Segunda Guerra Mundial, porém focando no adolescente, que desfrutava em suas letras de uma existência centrada no hedonismo, de farras, carrões, música, fast-food, só interrompidos pelas poucas horas de escola (ressaltadas em School Days).

Escreveu seu Leaves of Grass (a obra prima de Whitman) com guitarra elétrica, nas letras em que canta a América nos ditos anos dourados, com uma riqueza de imagens e vocabulário que, pensando melhor, o fizeram merecer o elogio do prêmio Nobel de literatura Bob Dylan. Coincidentemente, seu primeiro hit, Maybelene, é de 1955. Walt Whitman publicou Leaves of Grass um séculos antes, em 1855.

Corta para aquela noite fria no Pacaembu. Os dois ainda estavam em grande forma. Little Richard, cantou tudo aquilo que a gente esperava, fez tudo aquilo que se esperava dele, como se dizia, ainda, soltou a franga, subiu no piano, emitiu aqueles agudos, que Paul McCartney sabe emular com maestria. Foi importantíssimo para o rock and roll, mas não tanto quanto Chuck Berry. A música do cara, como se sublinhou lá em cima,  está em todo mundo, Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, absolutamente todas a chamada british invasion. No Brasil? na Jovem Guarda, em Raul Seixas, sem esquecer o Gilberto Gil de Chuck Berry Fields Forever, ou de Back in Bahia, um rock totalmente à Chuck Berry, e às pencas em Rita Lee, a lista é longa.

Nem lembro a banda com quem ele tocou naquela noite. No começo não se entendiam bem. Mas quando as peças se encaixaram, Chuck Berry, tocando com a guitarra de Marcelo Nova (salvo engano, vou nem ao google confirmar), que pertenceu a Raul Seixas (ou não?), deslanchou. Mandou ver todos aqueles clássicos seminais, e bota seminal nisso. O rock and roll estava renascendo ali na nossa frente, na concha acústica do Pacaembu. Se não tivesse conservado o ingresso do show até hoje, iria duvidar que estive ali, que Chuck Berry (e Little Richard), esteve ali, naquela noite fria paulistana. Meninos, eu vi!

Confiram Chuck Berry, em 1958, em Johhny B Goode:


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