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Vitor Rua tocando a trilha onírica dos androides

13 / ago
Publicado por José Teles às 18:35

O músico português Vitor Rua foi um dos fundadores, em 1981, do popular grupo de rock luso GNR, do qual saiu no ano seguinte, para enveredar por uma carreira aventurosa, criando música menos palatável. Com público certo e sabido, afinal é disto que tira o sustento há anos. 30 deles tocando com o pianista Jorge Lima Barreto, com quem forma o duo Telectu.

Como artista solo, Vitor Rua desenvolve suas lucubrações com músicos, portugueses e de outros países.  É uma espécie de John Zorn da guitarra. Música concreta, free jazz, eletrônica, punk, thrash, minimalista, e muito mais, estão no seu cardápio sonoro. Rua explora os infinitos caminhos da guitarra no recém-lançado Do Androids Dream Of Electric Guitars? (pelo selo Clean Feed).

Creditado a Vitor Rua &  The Metaphysical Angels, o álbum é duplo. O primeiro disco tem apenas Vitor Rua e guitarra, em dez temas instrumentais, que são repetidos, no CD 2, com a banda, formada por nomes de variados nichos da música portuguesa. Do Androids Dream of Electric Guitars? Serve como uma espécie de aula de música de vanguarda.

Cada faixa é um capítulo, ou uma lição. Em #3 Roullote, Vitor Rua incursiona pela improvisão livre, o free, surgido no final da década de 50, procurando outros idiomas para o jazz. No entanto, embora livre de amarras, ainda assim é jazz. Improvisa-se livremente mas se segue a regra de retomar um tema. Isto não acontece com  #4 Flamenco is Dead que é a improvisação total, construída com sons pesados e distorcidos de guitarra.

Rua recorre ao livro Improvisation, do igualmente guitarrista Derek Bailey (inglês, falecido em 2005), que chamava esta música de não-idiomática. Mas aponta Rua, mesmo um não-idioma acaba tornando-se um novo idioma. Ele toca neste álbum um estilo que batizou de Improvisação Meta-Idiomática. Os androides para Vitor Rua sonham com guitarras elétricas, nos mais diversos idiomas musicais, serialismo, música concreta, free jazz, rock, jazz, enfim, uma Torre de Babel em que o fio condutor amarrando todas as linguagens é a improvisação.

Obviamente, Do Androids Dream of Electric Guitars? não é um disco fácil, mas a consistência da música de Rua vence resistências de condicionamentos ao convencional. Valendo-se de um conceito paradoxalmente convencional. O primeiro disco tem os temas tratados como música de câmara, o segundo os temas recebe tratamento orquestral (com guitarras, sax, teclados, etc). São dois lados de uma mesma moeda, visões complementares. Um belo trabalho de um músico desconhecido no Brasil, como aliás, a grande maioria da música que se faz em Portugal.

Confiram Vitor Rua & The Metaphysical Angels no clipe de #4 Flamenco is Dead :

 

 

 

 

 


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